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Desumidificador

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O facho é o sistema

Zurzida em numerosas tribunas devido ao seu último artigo de opinião, vindo a lume no Público de 6 de Julho, a professora Maria de Fátima Bonifácio (MFB) encontrou um ambiente fraterno em O Diabo, o semanário fundado por Vera Lagoa e tradicional porta-voz da extrema-direita lusa. No número de 12 de Julho de O Diabo, o histórico antifascista Henrique Neto assina a crónica “A censura em marcha”, onde manifesta a sua concordância com o texto de MFB, à excepção das “sempre perigosas” generalizações por esta feitas, e condena as respostas ao artigo da historiadora divulgadas no Público, diário ao qual, segundo Neto, “as ideias e os ódios de estimação do Bloco de Esquerda” já parecem ter chegado. Outro colunista de O Diabo, Manuel Silveira da Cunha, também rejeita as “generalizações abusivas” de Bonifácio, cujo erro foi não ter apresentado as estatísticas comprovativas da abundância de indivíduos “iletrados”, “parasitas”, “traficantes”, “violentos” e “maus vizinhos” dentro da comunidade cigana (números que Cunha também não partilha com os leitores). Já na edição de 19 de Julho, para além das cartas de dois leitores de O Diabo que defendem Bonifácio e atacam os críticos da académica, a polémica é referida nos artigos do jovem nacionalista Manuel Rezende, para quem as considerações de MFB são “um manifesto de senso comum” atacado pelos “fanáticos da liberdade e da tolerância”, e do professor Isaías Afonso (membro do Conselho Nacional do CDS), furioso com a forma “infame” como os “nauseabundos” comentadores do programa da SIC Notícias O Eixo do Mal enxovalharam Bonifácio e esperançoso de que “Talvez um dia estes abutres da Democracia de Opereta sejam abatidos e lançados na cloaca a que pertencem” (sic).

Apesar de toda a discussão originada pela crónica de MFB, a antiga professora da FCSH-UNL mantém-se em total silêncio, sem defesas nem actos de contrição. No entanto, sabe-se agora que o dia 30 de Julho ficará marcado pelo lançamento de Fora da Circunstância, o novo livro de Maria de Fátima Bonifácio, editado pela Dom Quixote e que reúne 32 crónicas escritas pela autora entre 1990 e a actualidade. Se MFB tivesse criticado as quotas raciais sem mencionar as características inatas por ela observadas nos povos alheios à “Cristandade”, quantas pessoas reparariam na nova obra de Bonifácio? Provavelmente, muito poucas. Contudo, depois do nome de MFB ter chegado nas últimas três semanas a muita gente que nunca leu os livros da historiadora sobre a época de Saldanha e Costa Cabral, tudo é diferente, até porque a Dom Quixote não resistiu a escrever na capa de Fora da Circunstância o adjectivo mágico “polémicos”, que tudo atrai e tudo desculpa. Os críticos de MFB foram, afinal, participantes involuntários num golpe publicitário bem urdido. Poder-se-ia objectar que o estatuto de heroína obtido por Fátima junto de algumas pessoas não compensa a etiqueta de racista que MFB terá de usar até ao fim da vida. Quem conhece a prof. Bonifácio, porém, sabe que ela nunca teve propriamente a popularidade de Marcelo Rebelo de Sousa, pelo que as perdas não serão muitas.

 

 

Esta polémica estival permite identificar um determinado padrão de reacções já verificado noutros momentos dos últimos dois anos, a propósito de eventos como a conferência que Jaime Nogueira Pinto não realizou na FCSH-UNL, a entrevista ao i através da qual André Ventura entrou na política, o convite para discursar na Web Summit feito e depois retirado a Marine Le Pen ou a ida de Mário Machado ao programa de Manuel Luís Goucha. Tudo começa quando um facho (ou facha) fala ou é convidado para falar num espaço físico ou mediático onde o discurso de extrema-direita raramente é ouvido, atingindo assim um público vasto, cujos membros reagem maioritariamente com surpresa, repulsa instintiva e, por fim, indignação expressa nas redes sociais. As “redes sociais” aqui referidas não incluem necessariamente o cidadão comum que publica sobretudo fotos tiradas na praia ou no restaurante e rodeadas de hashtags, mas sim as páginas de políticos, jornalistas, comentadores, historiadores e outros indivíduos capazes de aceder aos media tradicionais, nos quais a ira contra o facho se converte em tema noticioso. O pessoal mais exaltado pede, habitualmente sem consequências, a acção das autoridades para punir o facho e quem lhe deu um palco.

Surge então a grande onda de indignação contra a indignação. Alguns liberais bem intencionados vêm defender que a tentativa de censurar o facho está errada, pois só ouvindo o facho poderemos desmontar os seus argumentos e mostrar que as suas ideias ofensivas não dispõem de uma base social de apoio. Contudo, já se ouve, bem mais alto, o vozear daqueles para quem o facho (que, no essencial, está cheio de razão, apenas não usa as palavras certas) se torna um pretexto para atacar o ímpeto censório do “politicamente correcto” e o objectivo deste de dividir e oprimir a sociedade. No Observador, Alberto Gonçalves denuncia que, ao contrário do facho, a esquerda é perigosa, ama a tirania e despreza a liberdade, enquanto os outros colunistas escrevem o mesmo num estilo menos arrogante. Entretanto, os amigos do facho glorificam-no e aproveitam para insultar e ameaçar aqueles que não gostam do facho. No meio de tudo isto, o que faz o facho? Sorri, pois o seu nome e as suas palavras estão em toda a parte, como pretendia. O ruído amaina ao fim de alguns dias, mas já ninguém conseguirá tirar o facho da arena política.

Este jogo perverso no qual a extrema-direita beneficia inesperadamente do combate que lhe é movido deixa claro que os fascistas não são vítimas do sistema, eles fazem parte do sistema, seja através de intelectuais prestigiadas como a prof. Bonifácio ou de estrelas da televisão como André Ventura. Recorrendo às designações utilizadas por Jaime Nogueira Pinto no livro Bárbaros e Iluminados (3.ª edição, 2019), há muito que os bárbaros transpuseram as muralhas, entraram nos palácios dos iluminados (N.º 10, Casa Branca, etc.), sujaram os sofás, puseram os pés em cima das mesas e mandaram calar os politicamente correctos que criticaram a imundície. A grande questão é saber como fazê-los sair e arrumar a casa depois da barafunda.