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Desumidificador

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O fascismo é isto

O ataque à Academia leonina não foi uma acção espontânea de alguns tipos excitados pelo álcool, dado que envolveu logística, mobilização e planeamento. Do ponto de vista de quem atacou, parece ter sido uma espécie de operação militar. Após identificarem o inimigo (os técnicos e jogadores do seu próprio clube), os agressores reuniram um pequeno exército, muniram-se de armamento, asseguraram o transporte e dirigiram-se ao alvo da incursão. A execução do plano foi eficaz devido a uma série de características: rapidez, efeito surpresa, superioridade numérica, uso maciço da força de modo a provocar o medo nas vítimas. No entanto, embora as claques estejam habituadas a combater entre si, atacar civis desarmados não é guerra, é terrorismo. Isto foi chato, mas temos de nos habituar, faz parte do dia-a-dia, acontece em todo o lado, não é? Pois, realmente não há muito mais a dizer. Excepto talvez procurar compreender como chegámos aqui.

 

 

Vivemos tempos estranhos no que respeita àquilo que pode ou não ser dito no espaço público. Por um lado, há quem se preocupe constantemente com a possibilidade de alguém se sentir ofendido por um determinado discurso, em particular no caso do humor. O “politicamente correcto” tem sido associado ao mundo académico e à esquerda ligada ao feminismo ou à defesa das minorias, mas políticos de direita como Nuno “Je ne suis pas Charlie” Melo também gostam de lembrar que com a religião não se brinca. Ao mesmo tempo, e enquanto tantos se queixam de já não poderem dizer nada, Bruno de Carvalho e vários comentadores de futebol dispõem de rédea solta para exprimir as opiniões mais rudes e ofensivas. A permanente compreensão pelos excessos verbais da tribo do futebol tem sido justificada com a natureza específica e irracional do desporto-rei. No entanto, o debate sobre política e outros temas que decorre sem cessar nos media e na Internet sobe igualmente de tom. Insultos, simplismo, arrogância, sectarismo, preconceitos, maniqueísmo, insinuações, efeito de manada e acusações sem provas tornam-se cada vez mais comuns. Afinal, tudo é proibido ou tudo é permitido?

 

A agressividade faz parte de todos nós e não ficámos repentinamente mais violentos no século XXI, mas o gigantesco megafone fornecido pelas redes sociais e a sensação de impunidade vivida dentro destas (uma espécie de mundo paralelo ao real onde podemos deixar sair o que nunca diríamos em voz alta) têm contribuído para aumentar o impacto da violência verbal, que alguns convertem em violência física. Também se verifica um forte interesse da comunicação social, desejosa de audiências num mercado em contracção, por tudo o que envolva polémica e confronto, com a lógica do reality-show a contaminar outros géneros televisivos. Contudo, os media e as redes sociais, apesar dos seus defeitos inegáveis, têm as costas largas e servem hoje de bode expiatório para tudo. Existem decerto causas sociais mais profundas para a crescente agressividade pública, mas, enquanto elas não são descobertas, o que me assusta é o facto de, a pouco e pouco, a linha de fronteira entre o normal e o inaceitável se ir movendo. A moderação passa a ser confundida com frouxidão, o apetite pela purga cresce, os fins justificam os meios, as regras democráticas começam a ser descritas como um obstáculo à segurança, à luta anticorrupção ou a qualquer outro objectivo nobre. Trump e Bruno já não parecem ser uma anomalia, antes um sinal do tempo que se aproxima.

 

Como travar o crescendo da tensão? Através de uma comissão de censura reguladora daquilo que se pode dizer? Não, “apenas” através do bom senso, do respeito mútuo, da luta quotidiana pela frágil democracia em que vivemos. 44 anos depois, nunca precisámos tanto da memória do 25 de Abril como agora.

 

P.S. Apesar da estridência do Prolongamento, nem todos os debates televisivos sobre futebol são iguais. O programa Trio de Ataque (RTP3), com Miguel Guedes, João Gobern e Augusto Inácio, é sobretudo uma conversa entre três amigos que gostam de futebol e cujas diferenças clubísticas nunca os levam a cair na má educação.

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