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Desumidificador

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O intelectual revolucionário

Numa entrevista concedida a Carlos Vaz Marques e publicada na Ler de Janeiro de 2010, Rui Ramos recordou a sua adolescência passada no distrito de Setúbal, uma “zona profundamente de esquerda, onde o ar cheirava a esquerda, a comida sabia a esquerda e em casa tinha pais de esquerda”, enquanto na escola o jovem Rui era doutrinado no esquerdismo pelos programas do ensino do pós-25 de Abril. À semelhança de algumas pessoas educadas em ambientes muito religiosos que se tornam ateias para toda a vida, Rui Ramos teve “uma enorme reacção àquilo que nos tentaram impingir”. Nos anos seguintes, Rui tornou-se historiador, apresentou novas interpretações da História Contemporânea portuguesa, lançou-se na escrita de crónicas sobre política e foi um dos fundadores e administradores do Observador, onde os artigos de opinião de Ramos enunciam frequentemente temas e expressões depois replicados por outros colunistas. Na actualidade, Rui Ramos é, juntamente com Raquel Varela, o mais destacado “intelectual público” português oriundo da historiografia.

 

Os compradores da revista comemorativa do quinto aniversário do Observador estão a receber como brinde livros publicados pelo projecto editorial Cinco Um Zero (ligado ao jornal e coordenado por João Miguel Tavares), podendo optar entre compilações de crónicas de José Manuel Fernandes e Rui Ramos. No caso deste, o volume A Conspiração Oligárquica reúne textos do historiador publicados na Internet entre 2014 e 2019 com um fio condutor a uni-los: a denúncia por Ramos, numa escrita clara, sucinta e mordaz, dos esquemas da “oligarquia” lusitana e da forma como a elite política utiliza o Estado para controlar a sociedade. Apesar do brilho estilístico, a leitura de A Conspiração Oligárquica desperta algumas dúvidas a seguir enunciadas.

 

1. A conversa de André Ventura sobre os políticos do sistema que vivem há 40 anos à custa do povo não será uma versão mais “popular” e aparvalhada das afirmações de Rui Ramos? Diga-se que, no prefácio do livro, Ramos recusa ver em “meia dúzia de populistas de televisão” (p. 10) uma alternativa ao regime vigente.

 

2. Na entrevista de 2010 à Ler, Rui Ramos explica a aparente contradição entre ser liberal e funcionário público, na qualidade de investigador do ICS, com o inevitável recurso ao financiamento do Estado para fazer História num país como Portugal. Todavia, outras contradições ligadas ao historiador permanecem. Durante toda a sua carreira, Rui Ramos investigou as elites políticas e intelectuais portuguesas, sem nunca parecer incomodado com o papel delas, excepto talvez no que respeita ao período da I República. Nesse sentido, o discurso anti-elitista assumido por Rui nas suas crónicas políticas tem uma aparência bizarra, além da ideia do Observador (financiado por accionistas de elevados recursos) ser o representante do povo contra as elites não convencer ninguém. Também não se compreende como é que Pedro Passos Coelho, quase sem actividade profissional fora da política ao longo de décadas, não pertence à oligarquia, definida por Ramos de forma bastante vaga. Por vezes, “oligarquia” parece ser a definição do cronista para “pessoas que aparecem na televisão e de que eu não gosto”.

 

3. Defensor de uma mudança de regime que mantenha a democracia mas renove profundamente o leque partidário, Rui Ramos acredita que “mudar o sistema político teria de consistir em mudá-los a eles” (p. 38), ou seja, aos partidos em actividade desde 1974. Não é claro, porém, onde seria recrutado na “sociedade civil” o pessoal político da IV República. Ao longo dos últimos anos, o leitor das crónicas de Ramos ficou a saber que os políticos se servem do poder apenas para seu benefício pessoal, que o Estado Social, essa fábrica de vassalos, só oprime os cidadãos e atrapalha a livre iniciativa, que as medidas governativas visam apenas criar clientelas partidárias e satisfazer interesses corporativos, que os impostos são um saque brutal, que a comunicação social está feita com quem manda, que os funcionários públicos e beneficiários de subsídios são parasitas que nunca arranjariam emprego no sector privado, que os compromissos entre partidos estão ligados à repartição por estes do bolo do Orçamento, em resumo, que a melhor coisa que o Estado pode fazer por nós é desaparecer. Depois de ler isto tudo, quem não se sente estimulado a ir para a política?

 

 

4. Numa das crónicas, o autor de A Conspiração Oligárquica condena uma “visão demoníaca” acerca dos adversários políticos que os considere o “mal absoluto”. Essa perspectiva leva à “redução da discussão pública à propaganda e à contra-informação”, num ambiente em que não é permitido aos líderes partidários “dizer nada que não seja abençoar os seus ou demonizar o inimigo”, sob pena de serem acusados de “trair a causa” (pp. 67-68). Obviamente que Rui Ramos se refere à atitude da esquerda. De quem mais poderia estar a falar?

 

5. Rui Ramos é um revolucionário. De facto, se alguém quiser imitar a escrita de Ramos, basta pegar em qualquer texto publicado num jornal de extrema-esquerda dos anos 70 e substituir “burguesia” por “oligarquia”, “capital” por “Estado” e “Mário Soares” por “Rui Rio”. As semelhanças são notáveis, até porque o historiador não dispensa os tiques dos antigos intelectuais “progressistas”. Ah, o prazer da generalização abusiva, a saudável visão confrontacional da política, a doce ideia de que quem não é por nós está contra nós (“o “centro” quer dizer o Estado e as suas clientelas”, p. 151), a divertida superioridade moral, o sonho poético de destruir tudo o que existe para construir um futuro luminoso, o sensato desprezo pelo povo que não se comporta como o revolucionário quer… Seja qual for a orientação, o radicalismo dá tanto sabor à vida.

 

6. O biógrafo de D. Carlos não alinha nos “gritos histéricos contra Trump e Bolsonaro” (p. 175) e vê na suposta ameaça fascista apenas um fantasma criado pela esquerda para atacar a direita e considerá-la ilegítima. Qualquer líder político não socialista seria, assim, silenciado por gritos de “fascista” e “Bolsonaro”. Claro que Rui Ramos não é um fascista. Aliás, o historiador critica o Estado Novo por ter acreditado que “Portugal podia ser um mundo à parte” (p. 158) do resto da Europa. No entanto, à medida que os anos passam e os textos de Ramos se tornam cada vez mais azedos, percebemos que Rui não acharia mal se a democracia hoje dominada pela “oligarquia” se fascizasse só um bocadinho. Para aí uns 10%.

 

7. Ao criticar o aproveitamento político da vitória portuguesa no Euro 2016, Rui Ramos aponta a contradição presente no facto dos políticos que receberam em festa a selecção integrarem “a mesma oligarquia que durante anos subsidiou uma razoável quantidade de artigos, livros e congressos a castigar o modo perverso como a ditadura salazarista explorava o futebol” (p. 63). Será que o Dr. Ramos poderia indicar dois ou três exemplos dessa abundante produção científica financiada pelo Estado? Pelo que sei, antes de 2008 não existia praticamente nada na historiografia portuguesa acerca do futebol durante o Estado Novo e, a partir desse ano, os autores que se dedicaram ao tema desmentiram a teoria dos “três efes”. Talvez os oligarcas costumem esconder o trabalho historiográfico pago pela FCT em arquivos secretos aos quais apenas Rui Ramos consegue aceder.

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