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Desumidificador

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O jornal não é uma arma

Além de ser publisher e colunista do Observador, José Manuel Fernandes colabora com a RTP3 na função de comentador político, sendo frequentemente chamado ao programa 360, apresentado por Ana Lourenço, para analisar temas da actualidade nacional. Nas suas prestações televisivas, geralmente a debater com outros comentadores do canal público, como Pedro Adão e Silva ou António José Teixeira, Fernandes deixa uma impressão positiva, na medida em que parece simpático, tolerante, sorridente, ponderado e, se não objectivo, pelo menos desapaixonado nos seus comentários. No entanto, quando “Zé Manel” chega à Rua Luz Soriano, entra na redacção do Observador e liga a câmara ou põe as mãos no teclado, transforma-se de repente num homem sectário, agressivo e ressabiado, adoptando um tom zangado e arrogante, por vezes a roçar a má educação. Não estou a exagerar: se compararem a linguagem oral e corporal utilizada por Fernandes na RTP3 e nos vídeos publicados no jornal online e na sua página do Facebook, verão que as diferenças são de estarrecer. José Manuel Fernandes constitui uma espécie de Dr. Jekyll e Mr. Hyde do comentário político português.

 

 

Na verdade, os locais de produção de alguns jornais possuem uma atmosfera própria cujos efeitos influenciam o espírito de quem lá trabalha. Imaginemos que o leitor se dirige às instalações do Observador no Bairro Alto. Mesmo que consiga passar pelo porteiro encarregue de barrar a entrada de qualquer apoiante da Geringonça, ao chegar à recepção é atingido por um raio semelhante ao do filme Capitão Falcão, mas de sentido inverso, fazendo-o odiar os comunas, querer privatizar propriedade pública e ficar apavorado com a ameaça do politicamente correcto. Caso opte por visitar a redacção do Diário de Notícias, transforma-se rapidamente numa pessoa quadrada, enfadonha e sem imaginação. Se viajar para o Porto e entrar na sede do Jornal de Notícias, começa logo, mesmo que seja um benfiquista ferrenho, a cantar: “Pinto da Costa, olé, Pinto da Costa, olé…” Já no edifício do grupo Cofina, entre os jornalistas da Sábado e do Correio da Manhã, esquece em dois minutos todos os princípios morais que lhe ensinaram, passa a considerar-se muita bom e fala com desprezo dos outros periódicos, vendidos ao sistema e cheios de amiguinhos do Sócrates. Por fim, se fizer um estágio não remunerado na redacção do i e do Sol, compreende logo que pode inventar à vontade ou publicar os maiores disparates que lhe passem pela cabeça, porque ninguém vai ler.

 

O “jornalismo opinativo” possui a vantagem de deixar clara a orientação de quem o pratica e assim evitar uma suposta imparcialidade usada para esconder todo o tipo de “truques”. Contudo, a mistura crescente entre opinião e informação na imprensa portuguesa tem efeitos perversos, ao conduzir a uma situação semelhante à da segunda metade da década de 70, quando cada jornal apoiava um partido, utilizava uma linguagem ideologicamente marcada, noticiava apenas os factos que lhe interessavam, escolhia os seus “bons” e “maus” na cena política e gastava boa parte do papel a atacar outros jornais. Os leitores já não estão disponíveis para esse jornalismo engagé e reagem mal às tentativas de manipulação, distanciando-se e agravando a situação económica dos media. Apesar da plena objectividade ser impossível de atingir, os jornalistas deveriam buscar o rigor e a independência e deixar as conclusões para o público. A sério, a gente chega lá sozinha, acreditem.

 

P.S. O semanário Voz do Povo, apoiante da UDP e onde José Manuel Fernandes trabalhou nos seus tempos maoístas, tinha em 1977 uma secção chamada “Observador”, dedicada ao registo dos acontecimentos dos diferentes dias da semana anterior a cada edição. Há coincidências curiosas.