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Desumidificador

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O novo sectário-geral

Só Deus e Cristiano Ronaldo são mais poderosos que o Correio da Manhã. A influência e invulnerabilidade do diário do grupo Cofina têm sido demonstradas por várias vezes, em particular no que respeita à coligação permanente entre o CM e o Ministério Público, cuja recente investigação sobre Mário Centeno nasceu de artigos publicados pelo jornal dirigido por Octávio Ribeiro. Apesar de cometerem sucessivos atropelos ao jornalismo, o Correio da Manhã e o seu braço televisivo, a CMTV, gozam de uma bizarra complacência no restante espaço público, como se tudo o que fizessem fosse perfeitamente normal e respeitável. Parece existir medo autêntico daquilo que Octávio Ribeiro e as suas tropas podem fazer caso sejam questionados. Esse medo é visível nas entrelinhas do comunicado do Conselho Geral Independente (CGI) da RTP que anunciou a não renovação do mandato de Nuno Artur Silva como administrador da estação pública. O CGI deixou claro que Silva não cometeu nenhuma ilegalidade e realizou um excelente trabalho desde 2015, mas não podia continuar em funções, pelo único motivo de ter um “conflito de interesses” no qual ninguém reparou durante três anos, antes do CM começar a visar a administração da RTP em manchetes sem fundamento consistente. A saída de Nuno Artur Silva constituiu uma vitória do CM e, em particular, do crítico de televisão do jornal, Eduardo Cintra Torres (ECT), cujos ataques a Silva são demasiado violentos, demasiado exclusivos (os gestores dos canais privados raramente são atingidos pelas críticas de Cintra Torres) e demasiado injustos para que os leitores não concluam pela existência de razões pessoais para Eduardo querer afastar Nuno. Mesmo assim, ECT ficou decepcionado, pois também desejava a cabeça do presidente da RTP, Gonçalo Reis.

 

Há que notar que Eduardo Cintra Torres (1957-) não é propriamente um novato sem conhecimentos de televisão. ECT publicou vários trabalhos académicos relativos à caixa mágica, como A Tragédia Televisiva (um estudo da cobertura noticiosa de eventos da dimensão do 11 de Setembro ou da queda da ponte de Castelo de Paiva), e Telenovela, Indústria & Cultura, Lda., onde acompanhou de perto a produção de uma novela da SIC. Antigo jornalista, professor da Universidade Católica e argumentista do telefilme da RTP Debaixo da Cama (2003), Cintra Torres exerceu a crítica de televisão no Público, durante um longo período em que se destacou por apreciações certeiras e irreverentes sobre a televisão portuguesa e se manteve atento a novos fenómenos, tendo sido um dos primeiros a reparar no valor dos Gato Fedorento. Paralelamente, ECT escreve desde 2003 uma coluna especializada em crítica de publicidade no Jornal de Negócios. A partir de 2011, Eduardo produz dois artigos semanais (“Panóptico” e “Imagens à Sexta”) para o Correio da Manhã, além de ser comentador da CMTV. Mentes mais ingénuas perguntariam se não existe um conflito de interesses em fazer crítica de televisão ao mesmo tempo que se colabora com um dos canais no mercado, mas ECT parece nunca ter colocado essa questão a si próprio.

 

 

Os espaços de que dispõe no CM permitem a Cintra Torres ir além das questões específicas da televisão e reflectir acerca da actualidade política. Embora sempre tenha assumido um posicionamento de direita, ECT não adoptava no Público uma orientação tão vincada como a actual. Assim, muitos dos parágrafos saídos da pena do crítico contêm expressões de nojo pelo Estado e por tudo o que a ele pertence, misturadas com ataques a António Costa, Marcelo Rebelo de Sousa e Catarina Martins, algumas das personalidades que, na opinião de ECT, gozam de excessiva protecção mediática. Desta forma, Eduardo Cintra Torres assemelha-se a um equivalente de direita de Mário Castrim, reconhecido pela sua competência crítica mas cuja dedicação ao PCP (que lhe valeu a alcunha de “sectário-geral”) o levava a fazer um escarcéu nas páginas do Diário de Lisboa se a RTP exibia por acaso uma parede com um grafitti do CDS. De igual modo, os contínuos reparos de ECT ao alegado esquerdismo da maioria dos media e à colaboração destes com a Geringonça fazem lembrar os militantes comunistas que encontravam apenas em O Diário a “verdade a que temos direito”.

 

O traço mais inquietante do registo actual de Cintra Torres é o seu arreigado “feitismo”, ou seja, as inúmeras ocasiões em que acusa alguém de estar feito com Costa, Marcelo, Sócrates, Salgado ou simplesmente com o “Sistema” vigente. Nos artigos de ECT, cujo acesso digital encontra-se há poucos dias restrito a assinantes do CM, qualquer discordância ideológica transforma-se em ataque pessoal e o indivíduo ou grupo visados estão sempre corrompidos pelo dinheiro ou pelo interesse. O crítico utiliza um tom rasteiro e mesquinho, repleto de insinuações e acusações não provadas, numa atitude de quem se sente moralmente superior a todos. Não há dúvidas de que, tal como outros colunistas do Correio da Manhã, Eduardo foi contaminado pelo ambiente poluído do edifício da Cofina (grupo com os mesmos accionistas da Celtejo) e tornou-se um sectário incapaz de analisar a realidade de forma isenta. As qualidades intelectuais de ECT estão lá, mas parecem ter sido deformadas pelo CM style e pela sua divisão do mundo entre criminosos, cúmplices dos criminosos e justiceiros situados acima do bem e do mal.

 

 

Esta situação não seria tão grave se Eduardo Cintra Torres não exercesse uma actividade em vias de desaparecimento na imprensa portuguesa, cuja crise tornou a crítica de televisão um género supérfluo. Não conheço mais nenhum crítico televisivo em actividade nos periódicos editados em papel, excepção feita a alguns dos textos de Eurico de Barros na revista Time Out. A agonia da análise crítica da televisão prejudica a própria TV, cada vez mais incapacitada de reflectir, presa a formatos ultrapassados e atolada num ambiente de caça às audiências no qual as piores acções são justificadas com os princípios mais nobres.

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