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O padre Gonçalo

Membro do Opus Dei, o padre Gonçalo Portocarrero de Almada é um colaborador habitual da imprensa, tendo publicado crónicas em jornais como o i, o Público e o Observador. Uma “selecção de textos sobre a Igreja e o mundo” escritos para este último deu origem a Observador Romano, volume agora editado pela Alêtheia. A mensagem da contracapa, parte essencial de qualquer livro (sobre este e outros temas, veja-se Mamas & Badanas, de João Pedro George), salienta que Almada é “um dos seus (do Observador) cronistas mais lido e partilhado”, ao ponto de “alguma vez, foram mais de mil os comentários” a um escrito do sacerdote, esclarecendo assim que, para Zita Seabra, a revisão de texto é um conceito ultrapassado. Destaca-se também a “indefectível fidelidade à Igreja e ao Papa” do autor, um aspecto aparentemente óbvio num padre católico, mas relevante no contexto actual. Na verdade, mesmo que Almada quisesse revoltar-se contra o Papa Francisco, não conseguiria, dado que “Não se pode ser bom católico sem ser fiel ao Santo Padre” (p. 114).

 

A divisão temática das crónicas de Gonçalo Portocarrero de Almada apresentada em Observador Romano mostra-se supérflua, devido à habitual combinação nos textos do clérigo de reacções à actualidade com a reafirmação da ortodoxia católica. Embora negue a existência de uma “Igreja progressista” oposta a “uma outra Igreja, supostamente conservadora” (p. 184), o padre Gonçalo elege como adversários, além da Maçonaria e do comunismo (“Um católico maçon é como um cristão comunista: uma contradição e um escândalo!”, p. 185), seguidores de Jesus como os “católicos líricos”, “alguns pastores”, os “defensores da espontaneidade pastoral sobre o direito” (p. 33) ou Frei Bento Domingues, a quem critica pela sua rejeição das orientações episcopais relativas à sexualidade dos recasados. É frequente na prosa de Almada a oposição entre a excepção e a regra, geralmente no sentido de afirmar que a primeira não anula a segunda. Se alguns crentes se afastam das regras de vida fixadas pela Igreja, o problema não está nestas, mas naqueles, cuja exclusão dos sacramentos se justifica, pois “é óbvio que não pode ser desresponsabilizado quem padece as consequências dos seus próprios actos” (p. 240).

 

 

Quando rejeita o desejo das pessoas de “uma religião à sua medida” (p. 239) e lembra a necessidade de coerência na fé abraçada, o padre Gonçalo aproxima-se do pensamento de outro sacerdote cristão, o pastor protestante Tiago Cavaco. Numa obra sobre Lutero, Cuidado com o Alemão, Cavaco condena a religiosidade actual (resumida na expressão “Deus na Barriga”), por si associada ao relativismo, à negação do conceito de pecado e à valorização constante dos sentimentos e da auto-estima. Em resumo, quer Almada quer Cavaco dizem aos seus rebanhos: “O caminho da salvação é este. Se quiserem vir por aqui, óptimo. Se não quiserem, estão lixados”. No caso do sacerdote obediente a Roma, a intransigência manifesta-se de igual forma no combate ao laicismo, “herança do terror revolucionário francês” (p. 196), e na rejeição de medidas políticas como a legalização do aborto, do casamento homossexual e da mudança de sexo. Almada utiliza um tom cáustico e quase agressivo, desmentindo a sua “imensa alegria de viver” mencionada na contracapa ao multiplicar as reacções de indignação e dar “indícios de uma mentalidade perigosamente autoritária e de uma exagerada suscetibilidade em relação a qualquer discurso que não exalte o seu estilo de vida” (p. 176). Ninguém pede a Gonçalo Portocarrero de Almada que abandone as suas crenças, mas o clérigo assemelha-se a um porteiro severo com a função de barrar a entrada na igreja a quem não for suficientemente puro.

 

O aspecto inquietante de Observador Romano está no facto de transmitir a ideia de uma Igreja Católica dominada pelo medo do presente, que a leva a erguer uma muralha para se proteger do mundo exterior. Com o seu discurso amigável e a sua capacidade de ceder no acessório sem pôr em causa o essencial, o Papa Francisco veio abrir as portas da muralha, causando o pânico de quem teme a entrada dos bárbaros enquanto fomentava a esperança dos leigos numa Igreja mais apta a perdoar que a condenar. Padre Gonçalo, não sou ninguém para falar destes assuntos, mas, de pecador para pecador, digo-lhe que a Igreja foi feita para os homens (e as mulheres) e não os homens para a Igreja.

 

P.S. Quando a secretária de Estado da Modernização Administrativa, Graça Fonseca, assumiu a sua homossexualidade, Gonçalo Portocarrero de Almada negou qualquer “coragem” ao acto (faria o mesmo aquando do coming out de Adolfo Mesquita Nunes) e pediu mais “decoro”, pois “não é suposto que um membro do governo faça confidências públicas sobre a sua orientação sexual, seja ela qual for” (p. 91). Imagino a fúria sentida por Almada sempre que a ex-ministra Assunção Cristas proclama aos quatro ventos a sua heterossexualidade e fala sem pudor acerca do marido e dos filhos.