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O partido do Carlos

Zita Seabra, mandatária da Iniciativa Liberal nas eleições legislativas de 2019, editou na Alêtheia livros autobiográficos dos dois anteriores líderes do partido, Miguel Ferreira da Silva (autor de Obrigado pela Democracia, Agora Queremos Liberdade, uma obra sobre a fundação e os primeiros meses da IL) e Carlos Guimarães Pinto (CGP). No livro A Força das Ideias: Histórias de uma Eleição, CGP relata o período de cerca de um ano entre o convite para liderar a Iniciativa, que aceitou em Agosto de 2018, e a sua demissão da presidência logo após a eleição do primeiro deputado liberal. Este tipo de memorialística é ainda raro entre os políticos portugueses, sobretudo quando trata de acontecimentos ainda recentes. A obra onde Carlos apresenta com uma simplicidade desarmante a “história improvável” do ano em que conduziu a IL do anonimato ao Parlamento serve ainda para compilar textos dispersos (discursos, entrevistas, artigos de opinião) do autor, cuja apresentação por ordem cronológica prejudica o ritmo da narrativa. No entanto, esses textos revelam o talento de polemista de CGP e a forma como as suas crónicas, abundantemente partilhadas nas redes sociais, contribuíram para difundir os princípios da IL e atrair novos simpatizantes. Quanto à história de A Força das Ideias, não fornece grandes revelações, até porque Carlos omite o nome da celebridade que convidou antes de Ricardo Arroja para ser o cabeça de lista da IL às europeias (não, não foi Cristina Ferreira), mas deixa claro que Guimarães Pinto foi o verdadeiro criador da Iniciativa tal como ela é hoje, ao mostrar as relações difíceis entre CGP e os fundadores, que pretendiam “algo mais próximo daquilo que seria o Livre” (p. 55), e a dinâmica muito maior que a IL ganhou à medida que os seus militantes alinharam “as suas visões ideológicas com as minhas” (p. 61).

 

O desenvolvimento da Iniciativa Liberal resultou do processo de radicalização e fragmentação da direita portuguesa verificado na última década. Quanto à radicalização do discurso, basta notar que hoje em dia até Henrique Raposo parece ser um moderado (!), enquanto a fragmentação, agravada depois do PSD ter deixado de servir de chapéu-de-chuva para várias tendências, torna mais correcto falar actualmente em “direitas”. De facto, sempre que participa em encontros de membros dos vários partidos da “área não socialista”, CGP lança duros ataques aos fascistas e aos conservadores, a quem acusa de perderem tempo com causas inúteis, sacrificando prioridades como o crescimento económico e a descentralização. A IL rompe com a tradição de “Deus, Pátria, Família” e apresenta uma visão laica da sociedade distante da influência da Igreja Católica ou dos cultos evangélicos (relevantes no interior do Chega), o que lhe permite apresentar um programa liberal nos costumes que aceita o aborto e a eutanásia e passar ao lado de polémicas como a da Educação para a Cidadania. Enquanto o conservadorismo venera naturalmente os idosos, um grupo populacional disputado com ardor pelos políticos devido à sua numerosa participação nas eleições, a IL dirige-se sobretudo aos jovens e adopta uma retórica que torna João Cotrim de Figueiredo o único deputado de um partido revolucionário sentado no actual Parlamento. O rápido sucesso da IL, que surpreendeu um pessimista nato como CGP, seria inalcançável sem o Twitter e o Facebook, onde os cartazes, slogans e quadros elaborados por Carlos e pelo seu reduzido núcleo duro atingiram uma repercussão muito superior à da presença do partido nos media tradicionais. Enquanto os restantes partidos fazem ainda política a pensar na televisão (Marcelo Rebelo de Sousa é um mestre inultrapassável nessa arte), o Chega e a Iniciativa Liberal introduziram em Portugal a política produzida para as redes sociais. Embora sem o mesmo êxito da série André Ventura Esmaga, as intervenções parlamentares do deputado liberal deram origem a numerosos vídeos no You Tube do tipo “Cotrim faz Pedro Nuno Santos chamar a mãezinha”. Um misto de irreverência, teatralidade e ocultação dos argumentos dos adversários garante o impacto dos conteúdos junto da base de apoio do partido.

 

 

No artigo “#ComPrimos”, publicado em 9 de Agosto de 2019, Carlos Guimarães Pinto utiliza por 12 vezes a palavra “talentos” e derivados desta para se referir à população jovem que emigra ao ver os empregos que pretende ocupados por “primos e afilhados” do PS (pp. 136-137). Noutro ensaio, CGP queixa-se de que o “terrorismo fiscal” afasta do país “investidores, empresários e trabalhadores altamente qualificados” essenciais para fazer a economia crescer (p. 111). Estas expressões deixam implícito o principal problema da Iniciativa Liberal, um partido que parece não ter nada para dizer a quem não quer (oh, heresia) ser empresário ou consultor de grandes empresas. Instalou-se a percepção de que a IL despreza ou não compreende a maioria não “talentosa” dos portugueses, acusados por vários colunistas da área liberal de excesso de moleza, conformismo ou esquerdismo. Entretanto, um rumor espalhado à boca pequena entre cientistas políticos afirma que os funcionários públicos têm um comportamento eleitoral semelhante ao do resto da população (parece loucura, bem sei) e aqueles que vivem num luxo menos ostensivo, como os polícias, podem até ser sensíveis à mensagem do Chega. Apesar da relevância da criação de riqueza, a vida não é só economia e um discurso baseado no “identitarismo” ou no “ressentimento” (pp. 208-209) torna-se mais apelativo que o verbo de CGP por garantir que “nós” somos os bons e “eles” não se ficam a rir. Diga-se de passagem que, ao atacar “uma elite corrupta e imoral” (p. 174) ou considerar certos partidos moralmente inferiores, o economista de olhos invulgares não fica imune à sedução do populismo.

 

A demissão de Carlos Guimarães Pinto da presidência da IL gerou um “sentimento de traição” em muitos militantes (p. 203), embora o posterior suicídio do Livre tenha deixado claros os riscos da falta de coordenação entre a liderança de um partido e a sua representação parlamentar. Não há nada de particularmente errado com João Cotrim de Figueiredo, mas este transmite a ideia de que qualquer outro membro da IL poderia ter o mesmo discurso. O sentido de humor, a capacidade de inovação, o uso habilidoso da palavra e até o carisma de anti-estrela são características de CGP que lhe conferem um brilho raro no seu sector político. De resto, os fortes elogios ao discurso do espinhense na convenção do MEL, feito pouco antes do confinamento, deram a Carlos a oportunidade de declinar uma candidatura presidencial. Entretanto, as sondagens têm atribuído à IL uma lenta consolidação, semelhante à obtida pelo PAN na anterior legislatura e a confirmar nos próximos actos eleitorais. Nas presidenciais, Tiago Mayan procurará solidificar o eleitorado do partido, sem grande coisa a perder, pois fracassará apenas se ficar aquém de 1% dos votos, enquanto nas autárquicas a Iniciativa necessitará de distinguir os municípios onde tem força para se apresentar sozinha daqueles em que poderá integrar coligações. Em Odivelas, o desafio dos liberais será ultrapassar o cliché de “partido das Colinas do Cruzeiro” e conseguir penetrar nos outros bairros da cidade. Só o futuro esclarecerá se a Iniciativa Liberal, a filha mais nova de Carlos Guimarães Pinto, permanecerá limitada a um nicho do eleitorado ou conseguirá empurrar as restantes direitas no sentido do liberalismo.