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Desumidificador

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Os meus sobrinhos

Tenho dois sobrinhos, um rapaz com seis anos e uma rapariga com dois. Não vou partilhar aqui os nomes e imagens deles, numa tentativa de proteger a privacidade dos miúdos até ambos terem as suas próprias contas no Instagram (ou, mais provavelmente, noutra rede social que então estará na moda). Por isso, imaginem dois sorridentes moços lisboetas que gostam de brincar no parque, ver desenhos animados no You Tube e testar os limites da paciência dos pais. Num momento, são teimosos e caprichosos como só as crianças conseguem ser, para logo a seguir se tornarem inocentes e ternurentos ao ponto de derreterem o coração mais empedernido. Ainda parecem desenhos inacabados a que se acrescenta um traço a cada dia, mas por vezes mostram características psicológicas capazes de perdurar pela vida fora.

Muito me ensinaram estes dois infantes ao longo dos últimos anos. Desde logo, revelaram-me uma forma de amor que desconhecia, sempre acompanhada pelo medo de que algo perigoso lhes aconteça. Impressionaram-me pela naturalidade com que entraram no filme, como se estivesse tudo preparado há muito tempo no plateau para eles surgirem diante das câmaras, e pela rapidez e eficácia da sequência em que o mais velho deixou a sua actuação a solo para constituir uma dupla imbatível com a irmã. Fizeram-me compreender melhor a ideia da mudança e da continuidade na história e despertaram o meu interesse pelos antepassados de que eles são herdeiros sem o saberem. Recordaram-me como correr atrás de bolas podia ser divertido, levaram a que descobrisse coisas que já deveria conhecer (como a música de José Barata-Moura ou os livros da colecção do Sapo, de Max Velthuijs) e aumentaram muito o meu interesse pelo futuro. Para além, é claro, de provarem a conclusão óbvia de que, apesar das ordens serem dadas pelos adultos, são os putos quem verdadeiramente está no comando da família desde o dia em que nascem.

 

 

Ao mesmo tempo, os catraios enchem-me de dúvidas. Para começar, seria preferível que eles continuassem pequenos e fofinhos ou que precisassem em breve de usar a senha do Portal das Finanças? E até começarem a engrossar a receita fiscal do Estado, o que posso eu fazer por eles? Conseguirei explicar-lhes que Deus está no silêncio? Contar-lhes o choque que sentimos quando as Torres Gémeas foram destruídas? Descrever-lhes o ambiente apocalíptico das semanas em que a pandemia que eles eram demasiado novos para compreenderem (ou talvez não) começou? Pedir-lhes perdão por não ter feito mais para travar as alterações climáticas? Recordar com saudade o tempo em que não havia VAR no futebol? Falar-lhes do que aconteceu com D. Afonso IV quando forem adolescentes e erguerem as espadas contra os pais? De momento, é impossível saber, mas pouco importa. Os meus sobrinhos escreverão a sua própria história usando palavras que ainda nem sequer foram criadas e eu limitar-me-ei a lê-la com uma eterna expectativa pelo que acontecerá no próximo capítulo.