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Os novos

Nas próximas eleições legislativas, encaradas por quase toda a gente como mera rotina, uma das poucas incógnitas reside na expressão dos votos nos novos partidos de direita, que obtiveram em conjunto nas europeias pouco mais de 4%. A possibilidade de Chega, Aliança e Iniciativa Liberal elegerem representantes na Assembleia da República é deixada em aberto pelas sondagens, embora estas sejam sempre duvidosas no que respeita aos partidos com menos votos. Tendo em conta a dificuldade histórica de afirmação à direita de projectos partidários alternativos a PSD e CDS, a entrada em S. Bento de personalidades ligadas a outras formações representaria uma originalidade encarada com interesse por vários sectores dessa área política, há muito desiludidos com Rui Rio e Assunção Cristas. No entanto, mantém-se incerta a capacidade de atracção de eleitorado pelos novos actores políticos, aqui analisados de forma breve.

 

Aliança: No início do ano, durante um debate na SIC entre José Gomes Ferreira e António Costa, o primeiro inquiriu o segundo sobre a possibilidade do PS estabelecer um acordo parlamentar com o partido de Pedro Santana Lopes caso os socialistas ficassem a escassa distância da maioria absoluta. Não me lembro do que Costa respondeu, mas fiquei logo com a sensação de que, na altura das eleições, um cenário desse tipo pareceria demencial. Foi a única vez que acertei numa previsão. De facto, não era bem isto que Santana Lopes esperava há um ano, quando avançou para a criação do seu há muito anunciado novo partido. As europeias correram mal, os resultados nas sondagens não descolam e, depois da cobertura exaustiva do primeiro congresso da Aliança, a comunicação social desinteressou-se do organismo, causando a birra santanista. Caso regresse ao Parlamento, Santana poderá apresentar o facto como uma vitória, mas dificilmente conseguirá subir em sufrágios futuros. O problema do partido está desde o início na contradição de se apresentar como uma força de mudança e anti-sistema liderada pelo político mais “do sistema” existente em Portugal (à excepção de Marques Mendes, claro). PSL tem demasiado passado e o estilo que já funcionava mal em 2004 não funciona de todo em 2019. Ideologicamente, a Aliança diz ser um pouco liberal, um pouco conservadora e um pouco eurocéptica, sempre sem exageros, pelo que se mantém ambígua e indefinida, uma espécie de PSD sem açúcar. Mais uma vez, Santana Lopes não desiste e recorda que é um “lutador”. O ex-primeiro-ministro até pode ganhar o combate, mas o problema é que já não há ninguém na plateia a assistir.

 

 

Chega: Para as pessoas menos atentas ao noticiário político, como Assunção Cristas, esclarece-se aqui que a coligação Basta acabou depois das europeias, quando Gonçalo da Câmara Pereira (PPM) e Sofia Afonso Ferreira (Democracia 21) se cansaram de ser figurantes no filme escrito, produzido, realizado e protagonizado por André Ventura, que agora se apresenta simplesmente como líder do Chega, partido que inclui nas suas listas alguns membros do PPV. Apesar do resultado de Maio ter ficado muito aquém das proclamações megalómanas de Ventura, é bom notar que os 1,5% do Basta constituíram um valor superior à tradição da extrema-direita lusa (até aqui representada apenas pelo PNR) e apoiado num número interessante de votos obtidos nos subúrbios de Lisboa. Caso estes se mantenham em 6 de Outubro, André poderá concretizar o seu sonho de discutir aos berros no Parlamento com as deputadas do Bloco de Esquerda. O Chega tem contra si o problema da total falta de consistência e credibilidade do pensamento venturista. No entanto, o partido dirige-se a um nicho de eleitorado outrora escondido no PSD e no CDS e que foi treinado durante muitos anos pelo grupo Cofina para assumir determinados comportamentos, entre eles a obsessão pelo crime, a degradação das boas maneiras e do vocabulário, o gosto pelo espectáculo inconsequente, a simplificação abusiva de todas as questões e o sentimento de tédio relativamente à política tradicional, cheia de coisas aborrecidas como negociar acordos, estudar problemas ou ouvir opiniões diferentes. Sempre acompanhado por jornalistas da CMTV e do i/Sol, André Ventura conta com o apoio da “bosta da bófia”, o termo técnico para designar a facção mais radical da PSP e da GNR, agrupada no Movimento Zero. Até às eleições, os cheguistas irão continuar a analisar diariamente a actualidade e seleccionar temas (ideologia de género, subvenções vitalícias, assassinatos cometidos por “monstros”, etc.) que permitam ao partido vociferar indignação sem conteúdo.

 

 

Iniciativa Liberal: A imagem actual da IL foi definida pelo seu segundo presidente, Carlos Guimarães Pinto, um dos autores dos cartazes irreverentes do partido que fazem lembrar os primeiros anos do Bloco de Esquerda, quer na originalidade quer na alegre inconsciência de quem se mantém ainda longe do poder. Mais do que a renovação do liberalismo português, a Iniciativa Liberal expressa a radicalização da direita ocorrida na última década e simbolizada por Zita Seabra, madrinha de uma tendência política amplamente representada na imprensa, nas redes sociais e na blogosfera, mas cuja base de apoio se revela exígua. De resto, transparece por vezes do discurso da IL a sensação de isolamento de quem se sente uma ilha no mar socialista e procura atrair os portugueses “talentosos” impedidos de se afirmar por cá devido aos impostos cobrados às empresas, deixando de lado a maioria menos talentosa da população. Sem o habitual choradinho dos partidos pequenos acerca da falta de carinho mediático, a Iniciativa começa a chamar a atenção através da sua propaganda, mas é ainda cedo para avaliar o potencial de expansão dos liberais, naturalmente reforçado em caso de entrada na arena parlamentar.