Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

Desumidificador

Desumidificador

Os novos rostos do ano

Sempre que um ano se aproxima do fim, é interessante verificar quais são as celebridades agora debaixo dos holofotes que, na altura da anterior passagem de ano, ainda eram quase desconhecidas. No restrito universo das pessoas nomeadas com frequência nos media, registam-se periodicamente, além das saídas de cena motivadas pelo último acorde (até sempre, Zé Mário), as entradas de novas personalidades resgatadas do anonimato por determinados acontecimentos. A nível mundial, 2019 tem sido marcado pela ascensão de figuras tão diversas como Juan Guaidó, Greta Thunberg ou Santiago Abascal, mas é difícil rastrear ao pormenor todos aqueles que se destacam por um motivo ou outro no conjunto dos países. Já em Portugal, onde a actualidade nacional faz lembrar uma telenovela na qual as personagens são quase sempre as mesmas, os recém-chegados ao palco mediático são geralmente poucos em cada ano, deixando de lado aqueles que se destacam mais pelas funções que assumem que pela sua actividade, como acontece nos casos de novos ministros ou futebolistas contratados pelos três “grandes”. Assim, no período decorrido desde Janeiro último, pudemos observar a subida no elevador da Glória dos portugueses que se seguem:

 

Bruno Lage: Após o despedimento de Rui Vitória do comando técnico do Benfica, o seu substituto Bruno Lage foi apresentado como uma solução provisória, mas os primeiros jogos da equipa sob a nova liderança chamaram a atenção e garantiram a estabilidade a Lage, que, para espanto geral, transformou o SLB num rolo compressor que subjugou o FC Porto de Sérgio Conceição e venceu a Liga, contrariando a tradição de inutilidade das chicotadas psicológicas. Para lá do sucesso desportivo, Lage adoptou um discurso sereno oposto ao habitual histerismo do futebol luso e atreveu-se a descrever a modalidade como um simples jogo, irrelevante perante as questões sociais e políticas actuais. Os resultados pouco brilhantes do Benfica nas competições europeias e o menor fulgor exibicional revelado pela equipa da “alma vermelha” no início de 2019/20 turvaram um pouco a imagem do técnico na Luz, embora permaneça ainda tudo em aberto para Lage.

 

Carlos Guimarães Pinto: Apesar de João Cotrim de Figueiredo ser o primeiro deputado eleito pela Iniciativa Liberal e o provável terceiro presidente do partido nos dois anos de história deste, o espinhense Carlos Guimarães Pinto foi o líder e a figura mais destacada da IL durante a campanha para as legislativas, quando expôs as suas ideias em entrevistas (incluindo uma importante aparição no programa de Ricardo Araújo Pereira) e artigos de opinião em vários jornais. Co-autor dos irreverentes cartazes da IL, Carlos uniformizou o discurso e o estilo de comunicação dos liberais num tom mais vistoso e aguerrido que o do período fundador, atingindo o feito de conduzir a S. Bento um novo partido com escasso apoio mediático e composto sobretudo por jovens. Para o bem e para o mal, a Iniciativa deve muito daquilo que é a Guimarães Pinto, cuja surpreendente demissão criou um certo vazio no partido durante a fase de definição da estratégia a seguir na arena parlamentar.

 

Carolina Loureiro: Esta escultural actriz de 27 anos, formada na academia dos Morangos com Açúcar e com um currículo até aqui limitado a pequenos papéis em novelas e à apresentação do programa Fama Show, irrompeu ao conquistar o lugar de protagonista em Nazaré, um folhetim da SIC cujas elevadas audiências beneficiam do tufão Cristina e dos danos por ele causados em Queluz. Na qualidade de estrela de uma novela na qual surge frequentemente em roupa interior, Loureiro ascendeu de um dia para o outro no star system português, ocupando as capas das revistas cor-de-rosa e do Correio da Manhã através da inevitável exposição da vida amorosa da actriz. O papel que desempenha em Nazaré não exige a Carolina os dotes artísticos de uma Meryl Streep, mas a jovem parece ter um vasto futuro à sua frente.

 

 

Joacine Katar Moreira: A simpatia gerada por Rui Tavares não impediu que o Livre sofresse nas eleições europeias uma nova derrota que colocou o partido numa situação difícil. Perante o desafio fulcral das legislativas, o Livre escolheu como cabeça de lista por Lisboa a historiadora Joacine Katar Moreira, na qual se personalizou uma campanha centrada na sua condição de mulher negra, oriunda de um sector da população geralmente afastado dos cargos políticos. Outro traço distintivo de Moreira, a gaguez que dificulta as suas intervenções públicas, depressa também se tornou notado. A partir da votação em que os eleitores de Lisboa (em particular os de Arroios) confiaram a Joacine um mandato para os representar, a nova deputada atraiu todos os olhares e a curiosidade deu lugar às críticas, inicialmente provindas da extrema-direita irada com a intrusa, mas que alastraram a comentadores receosos do estilo pessoal e do discurso “identitário” de JKM. Mesmo dentro do Livre, parece existir quem pense que isto já é Joacine a mais. Subsiste ainda a incógnita quanto ao efeito de todo o ruído nas possibilidades de crescimento do mais pequeno partido da esquerda parlamentar.

 

Miguel Pinto Luz: Desde 2017 que o nome do vice-presidente da Câmara de Cascais circulava como possível candidato à liderança do PSD, mas só neste Outono Pinto Luz desembainhou a espada e avançou contra Rui Rio e Luís Montenegro, com o apoio de alguns “notáveis” e distritais laranjas. No entanto, com uma experiência governativa fora de Cascais limitada à passagem como secretário de Estado pelo efémero segundo Governo da PAF, Miguel é um perfeito desconhecido para a esmagadora maioria dos portugueses. Talvez por isso mesmo, o autarca apresentou um extenso relato da sua vida dedicada ao PSD, a Deus e à família, sem produzir até agora nenhuma afirmação ideologicamente clarificadora. O caso de Pinto Luz convida a imaginar que manobras nos subterrâneos da política e do jornalismo serão necessárias para alguém se tornar candidatável a um cargo como o de presidente do PSD.

 

Pedro Pardal Henriques: Entre Abril e Agosto, o vice-presidente e assessor jurídico do sindicato dos motoristas ligados ao transporte de matérias perigosas tornou-se o símbolo do novo sindicalismo, um fenómeno que espalhou a confusão quer na esquerda quer na direita. Anunciando em inúmeras declarações formas de luta mais radicais e imprevisíveis que as tradicionais e envolvendo-se numa feroz guerra de palavras com o representante da associação patronal, o advogado concentrou as atenções da comunicação social de uma forma inédita e recebeu acusações de oportunismo e interesses políticos inconfessados. No entanto, a greve dos camionistas ocorrida no Verão não teve consequências de maior nas legislativas, às quais Pardal Henriques se candidatou sem sucesso pelo PDR. Pouco depois da votação, patrões e sindicatos da camionagem chegaram a acordo, agora no meio da indiferença geral.

 

 

1 comentário

Comentar post