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Desumidificador

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Os profetas

Num canal de notícias, o intervalo publicitário acaba e uma pivô entra no ar. A jornalista apresenta um painel de convidados formado por quatro comentadores políticos e pergunta a cada um deles quais serão os resultados das próximas legislativas e que governo sairá do acto eleitoral. O primeiro responde: “Não sei”. O segundo exclama: “Sei lá!” O terceiro encolhe os ombros: “Ainda falta muito”. O quarto tenta ser engraçado: “Deixei a bola de cristal em casa”. Imediatamente, a apresentadora conclui: “E assim termina o nosso programa de análise política. Já a seguir, não perca três horas de discussão sobre futebol. Boa noite”.

 

Obviamente, isto nunca aconteceria na vida real. Grande parte do comentário político português é preenchida por descrições daquilo que ainda não aconteceu. Nas últimas semanas, multiplicaram-se os prognósticos acerca do futuro da Geringonça, das eleições a realizar em 2019 e do governo que delas resultará. Com certezas inabaláveis, os analistas prevêem ao milímetro tudo o que vai suceder daqui a mais de um ano. Da mesma forma, apesar do mandato de Marcelo Rebelo de Sousa ainda ir a meio, já se discute a sua recandidatura em 2021. Esta impaciência não é nova, uma vez que Marcelo, quando era comentador da TVI, lançou durante anos nomes de possíveis candidatos às presidenciais de 2016, à excepção de si próprio. Fala-se muito em falta de visão de futuro na política portuguesa, mas esta vive sempre com os olhos postos na próxima ida a votos. Embora Marques Mendes, o “bruxo de Fafe”, se considere o mestre da profecia, todos os comentadores têm um pouco de adivinhos.

 

 

A tradicional previsibilidade da política nacional tem facilitado o trabalho dos videntes, que geralmente necessitam apenas de prever os movimentos de meia dúzia de actores políticos, conhecidos há muito tempo e cujos avanços ou recuos são antecipáveis a longa distância. Nos últimos anos, porém, enquanto os peritos estrangeiros eram desmentidos por reviravoltas políticas inesperadas como o Brexit e a vitória de Donald Trump, o comentariado português também vivia momentos de estupefacção. Nas legislativas de 2015, a vitória do desconhecido PAN no “campeonato” dos pequenos partidos, quando se esperava a chegada ao Parlamento de celebridades como Rui Tavares ou Marinho e Pinto, constituiu uma pequena surpresa, ultrapassada pelo que se passou nas semanas seguintes. Tendo em conta que a previsão mais comum dos analistas é que o futuro será semelhante ao passado, o aparecimento de circunstâncias inéditas, neste caso uma coligação parlamentar entre PS, BE e PCP, causou desorientação geral nos opinion makers. As previsões catastrofistas não concretizadas foram o efeito lógico da falta de imaginação e de precedentes. Já em 2017, quase ninguém antecipou a queda com estrondo de Pedro Passos Coelho após o mau resultado do PSD nas autárquicas. Apesar dos abundantes erros de previsão, nenhum dos comentadores pediu desculpa. Afinal, quem se enganou foi a realidade, não foram eles.

 

A que se deve tamanha insistência nos vaticínios relativos ao futuro político, como se o inesperado não existisse? Acima de tudo, à necessidade de preencher tempo de ecrã e espaço no papel ou no digital. Entretanto, muitas questões políticas e económicas revelam-se demasiado graves para serem deixadas ao sabor do acaso, pelo que o público, desejoso de um mínimo de previsibilidade que lhe permita “fazer planos do que virá depois”, exige implicitamente a realização pelos analistas de um trabalho análogo ao dos meteorologistas do IPMA. Por seu turno, a opinião publicada serve-se da futurologia não apenas para interpretar os factos, mas também para influenciá-los. Além de elaborarem augúrios favoráveis aos seus interesses pessoais e partidários, os videntes ajudam a criar dinâmicas de vitória e derrota capazes de influenciar os resultados eleitorais. Profetizar sucessivamente o triunfo ou o fracasso inevitável de um candidato pode estimular os votantes a colocarem-se do lado do provável vencedor ou, num raciocínio mais rebuscado, considerarem desnecessário o “voto útil”, já que o resultado está predefinido.

 

A natural inquietação humana com a incerteza do amanhã contribui para que as descrições de factos ainda não acontecidos proliferem nos media. Contudo, seria bom se os comentadores políticos acompanhassem as suas previsões das cautelas seguidas pelos seus colegas do desporto. Afinal, a política não é assim tão diferente do futebol, onde uma bola que entra ou não entra na baliza pode alterar o rumo de um jogo ou mesmo de um campeonato inteiro. Existem sempre cenários mais prováveis que outros, mas, se os comentadores fossem infalíveis, o muro de Berlim e as Torres Gémeas ainda estariam de pé.