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Desumidificador

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Os últimos seis meses

8 de Fevereiro: o longo período de compensação termina e a vitória é nossa. Chego finalmente a casa. Fernando Rocha pede ao vírus para vir cá. Os casos suspeitos multiplicam-se, mas, para desgosto das televisões, nunca é hoje. O surto descontrola-se em Itália e Espanha, os médicos têm que escolher quem salvar. Marega decide não aturar mais aquela merda. Surgem as cotoveladas amigáveis. O novo programa de Ricardo Araújo Pereira estreia na SIC. 2 de Março: primeiro infectado em Portugal. 6 de Março: vou a uma missa onde a única novidade é um frasco de álcool gel na pia baptismal. Última jornada da Liga com público. 8 de Março: o Presidente Marcelo entra em quarentena. A uma velocidade alucinante, Portugal adia, cancela, encerra, vai para casa. 12 de Março: António Costa fecha as escolas. Vive-se um ambiente de fim do mundo. Despeço-me dos meus sobrinhos antes de mês e meio de afastamento. Velhos casmurros recusam permanecer em casa. 18 de Março: declaração do estado de emergência. Fique em casa, vai ficar tudo bem. O país respira fundo e procura encontrar a normalidade na anormalidade.

 

Os dias tornam-se um dia único e enorme. Saio de casa apenas para ir à farmácia, ao Multibanco e ao supermercado. Todos passam a ser heróis, o que é o mesmo que dizer que ninguém o é. Rodrigo Guedes de Carvalho contrai a doença das pessoas que se levam muito a sério. Rogo aos meus parentes brasileiros para que ignorem o seu Presidente idiota. Paulo Portas todos os dias na TVI, porque aqueles fatos não se pagam sozinhos. Mal o sol se põe, o silêncio na rua é esmagador. Discreta e silenciosamente, a fome alastra. Suspense diário às 13.00. Na Páscoa, não se ouve nem um murmúrio. A curva achata. Nas redes sociais, pululam milhares de especialistas cujos palpites não são seguidos pelas autoridades porque estas são estúpidas. A clivagem esquerda/direita é substituída pela luta entre os partidos Abram Tudo e Fechem Tudo, cada um com os seus ideólogos. Algumas pessoas oscilam entre os dois partidos conforme a conjuntura. Eu leio o cepticismo de Metzner Leone. Telefonemas ao domingo para saber se toda a gente está bem. Contactar a cascata sanjoanina por Messenger. O horário do supermercado alarga. A posição oficial sobre as máscaras muda, e agora onde é que vou arranjar máscaras. Graça Freitas e Marta Temido, alvos de elogios e críticas fáceis. A pouco e pouco, sai-se. A polémica sobre o 25 de Abril na Assembleia da República prova que a democracia está em perigo. Grândola Vila Morena, terra da fraternidade. A CGTP não desiste do 1.º de Maio e metade do país rabuja. As coisas correm melhor que o esperado, quem governa beneficia. O estado de emergência é levantado. O país desconfina com muita cautela.

 

A papelaria é a primeira loja da rua a reabrir. O alívio do corte de cabelo. Uso um metro às moscas para voltar a Arroios. Leio com uma máscara na cara. O teletrabalho e as videochamadas banalizam-se. Regressar à Biblioteca Nacional e calçar luvas. Os idosos deixam o bunker. O alinhamento noticioso torna-se menos monotemático, até porque recomeçou o futebol. Descubro que Miguel Bombarda era um génio. A canícula e os incêndios chegam. Quem havia de imaginar que Pedro Lima… Alguém repara que quase todos os novos casos aparecem em LVT. Vejo-me numa das freguesias que se portaram mal. A culpa é sempre do vizinho. Fora das horas de ponta, os transportes não parecem assim tão cheios. A política normaliza. As manifestações anti-racistas chocam com a tribo do “não há racismo”. Maria Vieira dá vivas à IV República. O eleitorado fragmenta-se. Mais uma vez, a feira desaparece e o supermercado fecha mais cedo. O supermercado retoma o horário normal. Os números vão agora no bom sentido. A saúde privada reanima-se. O FC Porto faz a dobradinha e os benfiquistas começam a derrubar a estátua de Luís Filipe Vieira. O pior está para vir, dizem os economistas. Paira a ameaça da segunda vaga. Quem tem emprego vai de férias. O país pergunta-se: e agora?

 

 

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