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Desumidificador

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Paz, pão, povo e liberdade

Em Nascido para Mandar (Gradiva, 2004), José de Pina considera o PSD “um partido camaleónico” e afirma que “a única ideologia que une este partido é a de que Camarate foi crime” (p. 25). De facto, desde a criação do PPD, renomeado PSD em 1976, o partido de Francisco Sá Carneiro, um político com “filhos” espirituais tão numerosos quanto diversos, foi ideologicamente plural e albergou gente muito diferente. Os fundadores, entre eles Marcelo Rebelo de Sousa, tinham pertencido à “ala liberal” e ao grupo do Expresso, mas o aparelho do PPD integrou, sobretudo nos distritos mais rurais, personalidades das elites locais que se tinham mantido sempre fiéis ao Estado Novo. Embora os primeiros anos dos “laranjas” tenham sido marcados por dissidências e vários conflitos pessoais e ideológicos, o PSD veio a definir-se como um partido catch-all, pragmático, inter-classista e capaz de preencher um vasto espaço entre os extremos de esquerda e direita. Um certo “revisionismo” actual atribui ao PSD o papel histórico de reduto de todos os portugueses que não dependiam do Estado. Trata-se de um anacronismo, já que o partido do símbolo fálico não alcançaria tantas vitórias eleitorais sem o apoio de muitos funcionários públicos (por exemplo, os trabalhadores das autarquias ou do Governo Regional da Madeira). Durante o cavaquismo, O Independente distinguiu-se à direita por recusar a “união nacional” de ideologia vaga e fluida em que se transformara um PSD onde até Pacheco Pereira podia entrar. Quando uns afirmam que o PSD sempre foi de centro e outros que sempre foi de direita, ambos têm razão, pois essa ambiguidade constituiu o segredo do sucesso social-democrata (ou “social-democrata”?). A liderança de Pedro Passos Coelho e a tendência internacional de polarização ideológica e radicalização da direita, com evidentes repercussões em Portugal, vieram agitar a habitual placidez doutrinária do partido. Quando este ainda se encontrava no Governo, o “velho” PSD de Rui Rio e Manuela Ferreira Leite, crítico das políticas de austeridade, foi considerado ultrapassado pelos “novos” liberais, apostados em realizar mudanças profundas no país. A vitória de Rio há um ano proclamou o regresso do centrismo e da moderação, sem conseguir pacificar o saco de gatos.

 

 

Independentemente dos erros de Rui Rio, existe na base do conflito interno do PSD uma verdadeira componente ideológica. A bipolarização desenvolvida durante a crise de 2008 ainda não se dissipou, fazendo a direcção de Rio e o seu único apoiante entre os comentadores, Pedro Marques Lopes, assumirem a aparência de uma espécie bizarra ao ficarem a meio caminho entre a esquerda e a direita e receberem ataques vindos dos dois lados, no chamado “efeito Freitas”. Actualmente, para saber se alguém pertence ao centro-direita (CD) ou à direita a sério (DS), basta perguntar-lhe se está preocupado com a ascensão do fascismo. Um indivíduo do CD confessará estar muito preocupado, enquanto um da DS dirá que o fascismo é uma invenção da esquerda politicamente correcta. Na verdade, todo o ambiente dos media e das redes sociais propicia a radicalização, e aqui surge o segundo problema de Rio: o estilo. Com a sua falta de paciência para lidar com jornalistas, nos antípodas do contínuo reality-show de Marcelo, Rio favoreceu a hostilidade de uma comunicação social permeável à influência da DS. Ao mesmo tempo, o ex-autarca procurou distinguir-se pela ponderação e razoabilidade das suas intervenções, sendo habitual ouvi-lo referir determinadas práticas políticas cheias de ruído e acrescentar em seguida a frase “Isso é uma coisa que eu não faço”. Num tempo em que todos apreciam o drama, a tragédia, o horror, este tipo de atitude não entusiasma ninguém. Muitos “laranjas” gostariam que o seu líder fosse menos frígido e, à imagem da oferecida da Assunção, fizesse tudo. Em resumo, Rio está à margem da “onda conservadora/liberal” em curso no mundo e que Zita Seabra tanto aprecia. A nova batalha pela liderança do PSD ganha o dramatismo de uma luta entre o CD e a DS pela alma do partido.

 

Há muito esperado, o grito do Ipiranga de Luís Montenegro surpreendeu pelo momento escolhido. Aparentemente, ninguém na DS coloca a hipótese dos baixos resultados do PSD nas sondagens terem algo a ver com a incessante agitação vivida no partido e a falta de credibilidade ligada à desunião das suas principais figuras. A poucos meses das europeias e a três trimestres das legislativas, Montenegro deita gasolina na fogueira, ao invés de esperar calado e tranquilo que Rio se estampe, ganhando então quatro anos para “construir uma alternativa” (em português, para esperar que António Costa caia de podre). Parece um enorme erro táctico só explicável pelo pânico de quem não estava a pensar num PSD longe do poder quando preencheu a ficha de adesão. Mesmo que tudo corra bem ao portista e Montenegro se sente na cadeira que outrora pertenceu a esse político anti-sistema chamado Santana Lopes, nada garante que os eleitores afastados do PSD regressem de um momento para o outro. Talvez Luís tenha um plano infalível que ainda não percebemos, ou então o partido cujo hino Paulo de Carvalho compôs arrisca-se a viver tempos ainda mais duros. Por culpa própria, diga-se.

 

P.S. Luís Montenegro também enfrenta dois problemas. O primeiro é ter o mesmo nome da personagem principal do romance Montenegro, de André Ventura (facto verídico). O segundo é parecer saído da linha de montagem de uma fábrica de Luíses Montenegros todos iguais.