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Política na televisão

Os meios de divulgação da propaganda política têm evoluído ao longo dos anos. Por exemplo, os cartazes e autocolantes outrora afixados nos prédios foram substituídos por outdoors posicionados nas rotundas e cruzamentos, mas mesmo estes, apesar do empenho dos partidos de esquerda em preservar essa velha tradição, já se tornaram dispensáveis e sem quaisquer efeitos práticos. Na área dos media, embora a imprensa sirva para marcar a agenda política e transmitir recados no interior dos partidos, a perda de leitores reduziu muito a influência dos jornais. O futuro da comunicação política passa pela Internet, afirma toda a gente. Em Portugal, no entanto, os partidos estão longe de dispor de máquinas de criação e difusão de conteúdos semelhantes às da extrema-direita americana ou brasileira. A chacota em torno das fotografias publicadas por António Costa no Twitter e a crise na Iniciativa Liberal, causada pela origem da página de Facebook do novo partido, são casos reveladores da falta de à-vontade dos políticos lusos nas redes sociais. Estas funcionam sobretudo como material combustível onde alastram os “incêndios” ateados pelas notícias dos media tradicionais. Dentro destes, continua a ser na televisão que praticamente tudo se decide.

 

Um passo importante do cursus honorum de qualquer político português com ambições é a fase em que se torna comentador de um canal televisivo. Ao sentar-se num estúdio com um pivô e representantes de outros partidos, o político/comentador (P/C) dá a conhecer o seu rosto e voz aos eleitores e diferencia-se dos seus correligionários desprovidos de espaço mediático e, portanto, irrelevantes. Na televisão, o P/C vê a sua palavra ganhar um alcance e uma repercussão superiores àqueles que teria no Parlamento e goza de uma tribuna para defender o líder do seu partido, obtendo a gratidão deste, ou atacá-lo e lançar-se assim como futuro candidato à liderança. As audiências dos debates são menos importantes que o “nome” construído pelo homem público (ou, mais raramente, pela mulher pública) através da aparição no pequeno ecrã. O melhor é que, depois de atingir uma posição de destaque, o P/C não tem de deixar a televisão, já que pode perfeitamente fazer e comentar política ao mesmo tempo (veja-se o caso de Pedro Santana Lopes, líder da Aliança e comentador da SIC Notícias). Caso tenha chegado ao topo no seu partido e depois sido obrigado a sair, o P/C integra, se for hábil, a restrita elite dos “senadores”. Um P/C desta craveira tem direito a um programa de televisão só para si, com um jornalista a dar-lhe as deixas e outros jornalistas a assistirem ao programa para logo em seguida citarem na imprensa as palavras sábias do P/C. O trajecto perfeito de um P/C começa numa coluna de opinião num jornal e acaba na Presidência da República.

 

Para quem já atingiu uma posição cimeira como um cargo de poder ou uma liderança partidária, a caça ao voto é feita sobretudo nos telejornais. Nesta fase, importa aparecer. Aparecer muito, incessantemente, a propósito de tudo. Um dia sem microfones à sua frente é um dia em que o político de topo (PT) não existe. Se estiver na oposição, o PT pode dizer aos jornalistas que, apesar do Governo, está um dia lindo. Se estiver no Governo, o PT destacará o aumento do número de dias lindos verificado durante a sua gestão. Quando surge um tema comentável da actualidade, o PT tem de reagir imediatamente, mesmo sem saber bem do que se trata, sob pena de um PT rival se antecipar. Contudo, as palavras não bastam, são até a parte menos relevante. O fundamental é que o PT saia do gabinete para, acompanhado das câmaras, dirigir-se a um local onde estejam pessoas e com elas criar uma cena televisiva na qual seja o protagonista. O PT deve ouvir os populares e tocar neles, sorrir muito (ou chorar, quando for adequado), posar para fotografias, comer e beber tudo o que lhe ofereçam, dizer frases jocosas cujo duplo sentido remeta para a situação política e apostar no insólito, através de actividades como nadar, cantar, dançar, andar de bicicleta, limpar o chão, etc. Se o PT conseguir ainda falar sobre futebol, alcança a perfeição. Tudo isto, juntamente com as declarações sobre o tema do dia, faz nascer as peças televisivas através das quais a imagem do PT é construída junto da população, tornando-o uma marca capaz de dominar o mercado eleitoral.

 

 

E aqui chegamos às férias de Rui Rio. O presidente do PSD tem sido, de forma assumida, a excepção à regra, na medida em que, após chegar à liderança “laranja” sem uma passagem prévia pelo comentariado televisivo, entrou em confronto directo com os P/Cs do seu partido. As críticas de Rio à comunicação social, da qual os outros PTs procuram tornar-se amigos inseparáveis, e a notória falta de talento e vontade do ex-autarca para filmar cenas destinadas às novelas das oito, criam uma sensação de estranheza no ambiente mediático nacional. O facto de, durante Agosto, Rio ter estado mesmo de férias, sem produzir quaisquer declarações, motivou reacções de genuína estupefacção, enquanto a frenética Assunção Cristas dá generosa e infatigavelmente bons “bonecos” às televisões. Rui Rio faz política como se estivesse em 1988, ignorando o exemplo de Marcelo Rebelo de Sousa, o rei dos P/Cs e PTs do século XXI. Seja o estilo de Rio bom ou mau, não será fácil sobreviver politicamente quando se ganha fama de alienado.