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Desumidificador

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Povo, povo, eu te pertenço

Durante o PREC, tudo parecia simples. De um lado estava a “classe trabalhadora”, do outro a burguesia, os capitalistas, os latifundiários, os monopolistas, “enfim, os parasitas”, no resumo de José Jorge Letria. Representados nos cartoons dos jornais de esquerda como um grupo de gordos (ainda não existiam gorduras baratas no mercado) de cartola, charuto, fato e gravata, os banqueiros e empresários saíam do país ou originavam apelos à união dos trabalhadores, através da qual, segundo Fausto, “espalhamos a morte entre esta cambada". No entanto, percebeu-se que havia vários povos dentro do povo quando manifestações de sinal contrário se referiram a si próprias através do slogan “Se isto não é o povo, onde está o povo?” Nas décadas posteriores à Revolução, a luta de classes acalmou, fruto da estabilização política, da maior mobilidade social trazida pelo impacto da adesão à CEE e da redução da mão-de-obra nas actividades económicas mencionadas na “música de intervenção” (pesca, indústria, agricultura) em simultâneo com o crescimento do Estado e dos serviços, entre outros factores propícios à expansão da classe média, enquanto as relações laborais passaram a orientar-se pelo princípio da concertação social. Nas telenovelas, os pobres não queriam derrotar os ricos, queriam ser iguais a eles. Nem o abalo da crise económica forneceu particular sucesso ao discurso classista de esquerda, com BE e PCP a serem mais prolixos no ataque às “imposições da União Europeia” que na crítica ao sistema capitalista.

 

Actualmente, o anti-elitismo constitui uma marca do discurso da direita, pródiga em referências à “oligarquia”, às “elites bem-pensantes” ou aos “Donos Disto Tudo”, cujo domínio estaria a provocar o descontentamento da maioria do eleitorado e explicaria a emergência dos fenómenos populistas. As eleições no Brasil foram consideradas por analistas como Rui Ramos, João Miguel Tavares e Manuela Moura Guedes a prova de que os eleitores já não obedecem às ideias políticas das elites e aos princípios julgados indiscutíveis por estas. Confrontados no seu quotidiano com problemas a que o establishment não consegue dar uma resposta capaz, os populares europeus e americanos estariam a optar por soluções de ruptura, numa situação a que Portugal poderá não escapar caso o regime da Constituição de 1976 mantenha o seu bloqueio e a falta de reformas. Existe, no entanto, uma incógnita: quem faz parte das elites? Os comentadores referem-se a elas num tom de “vocês sabem do que eu estou a falar”, mas são parcos em exemplos de personalidades e grupos sociais colocados em posições de topo. A “oligarquia” que Rui Ramos tanto despreza aparentemente não integra os accionistas do Observador, mas apenas uma vaga faixa de dependentes do Estado situada algures entre Rui Rio e Mário Nogueira. Poder-se-ia pensar que os anti-elitistas se referem aos políticos tradicionais, ocupantes frequentes dos cargos públicos, mas, nesse caso, porque é que Cavaco Silva e Passos Coelho, com décadas das suas vidas dedicadas à política, não fazem parte do “sistema” decadente?

 

Numa posição surpreendentemente idealista, a direita considera a produção cultural mais influente que o poder económico e emite abundantes queixas relativas ao domínio dos media, das artes e da educação pela esquerda, que se serviria dessas posições para moldar ao seu gosto o pensamento das massas. O efeito hipnótico estará, no entanto, a desvanecer-se, servindo o exemplo brasileiro para João Miguel Tavares avisar as “elites artísticas, intelectuais e jornalísticas” (nas quais Tavares se auto-inclui) de que o “povo” já não segue as suas orientações e, embora acompanhe o trabalho de figuras da cultura de esquerda, não vota em quem elas indicam. Na verdade, existem motivos para questionar se isso alguma vez aconteceu. No caso português, os numerosos artistas e intelectuais ligados ao PCP e à extrema-esquerda no final dos anos 70 não impediram as vitórias eleitorais da AD. Quanto aos comentadores políticos, mesmo quando estes eram poucos (antes da “explosão” trazida neste século pelos canais de notícias), não haveria muita gente a orientar o seu voto por aquilo que Vasco Pulido Valente ou Miguel Sousa Tavares escreviam na imprensa. Já no presente, o artista engagé constitui uma espécie rara, quando se espera das celebridades que tenham muitos sentimentos e falem constantemente da sua vida privada, não da situação política.

 

 

As críticas dirigidas às “elites” visam não tanto aquilo que fazem, mas sobretudo aquilo que dizem e o facto das suas opiniões não acompanharem o suposto sentimento do cidadão comum. Assim, enquanto as “elites” vivem protegidas numa bolha, o “povo” sabe o que custa a vida. Ao passo que as “elites” iludidas julgam que podemos ser todos amigos, o “povo” identifica os riscos trazidos pelo fluxo de imigrantes e refugiados. As “elites” adoram falar dos direitos das minorias, o “povo” tem coisas mais importantes em que pensar. Os ateus pedantes das “elites” desprezam a religião cristã, cujos princípios são preservados pelo “povo”. Os sindicalistas ligados às “elites” fazem greves e manifestações, apesar do “povo” só querer trabalhar e criar empresas. A hipocrisia do “politicamente correcto” das “elites” contrasta com a rudeza sincera do “povo”. De uma maneira geral, as “elites” desejam mais Estado, mais impostos, mais regras, menos polícias, mais “cultura” que ninguém vê, mais homossexualidade e mais RTP2, enquanto o “povo” exige menos subsídios, mais armas, mais anos de cadeia, mais futebol, menos Islão e mais CMTV. As “elites” são Isabel Moreira. O “povo” é André Ventura. No meio de tudo isto, não sei quem é mais insultado, as elites ou o povo (agora sem aspas).

 

Num mundo em que um milionário nova-iorquino se apresenta como a voz dos pobres e excluídos e um ex-militar apoiado pelos grandes empresários anuncia ir libertar o povo brasileiro da elite corrupta, o anti-elitismo tornou-se uma arma das verdadeiras elites e uma forma de silenciar quem resista à tendência crescente para agravar a violência das práticas e dos discursos. A distinção povo/elites revela-se ainda insuficiente para compreender o fenómeno político. Numa sociedade individualista, onde as redes sociais reforçam a atomização e o isolamento, factores como a classe social ou o nível de escolaridade dos eleitores terão a mesma influência de outrora nas escolhas destes? Apenas estudos académicos poderão responder a esta dúvida.