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Desumidificador

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Quem tem medo do comunismo?

1. Ah, a Festa do Avante? Bem, o melhor teria sido não a realizar este ano, mas, já que o PCP tomou essa decisão, agora não dá para voltar atrás. Vão ver que tudo correrá bem, até porque os comunistas não querem dar prazer à legião que está a torcer pelo desastre e controlarão o público de perto. No entanto, esta polémica acentua a impressão de que o partido de Álvaro Cunhal chegou velho aos 99 anos de idade, sobretudo porque, tal como muitos idosos, o PCP não compreende nem é compreendido pelo mundo actual. A terciarização da economia e a maior precariedade do trabalho abalaram as bases sociais do partido, com um estilo de comunicação política antiquado e opiniões conservadoras sobre as questões de “costumes” (touradas, eutanásia, homossexualidade, etc.) aproveitadas por partidos mais jovens. Os outros sectores políticos orientados pelo marxismo não se encontram, porém, numa situação muito melhor. Depois do empate que obteve nas últimas legislativas e do embate no tecto dos 10%, o Bloco de Esquerda, a viver os desafios do início da sua idade adulta, hesita quanto ao caminho a tomar. Mais à esquerda, o MAS disputa o último lugar em qualquer eleição, Joana Amaral Dias tornou-se apenas uma estrela da CMTV e o trotskismo raquelista revela dificuldades para ultrapassar as fronteiras do meio académico. Posso estar a ser injusto, mas parece que nos últimos três anos Raquel Varela matizou-se, ou seja, passou a ser vista pela direita como um novo Arnaldo Matos (“o inimigo do meu inimigo…”). A violência do discurso anticomunista existente nas redes sociais resulta não da força, mas da fraqueza dos defensores de uma Terra sem amos. Já nem Jaime Nogueira Pinto se assusta com as bandeiras vermelhas. Quem tem medo do comunismo?

 

2. Muitas cabeças ditaram muitas sentenças sobre o crescimento da extrema-direita ocorrido na década que agora termina, mas poucos tentaram explicar porque é que o eleitorado descontente com o “sistema” se virou para os herdeiros do fascismo e não para as forças políticas anticapitalistas. O meu palpite vai para causas mais culturais que económicas. Enquanto nos anos 60 e 70 se verificou uma hegemonia cultural da esquerda e as décadas de 80 e 90 assistiram ao triunfo ideológico da direita liberal, o século XXI tem sido marcado pela hegemonia do pensamento “os políticos só querem é poleiro”. O Estado, os partidos e os ocupantes de cargos eleitos são alvo de desconfiança permanente. Na verdade, o pessimismo antropológico generalizado leva qualquer pessoa que se dedique a uma causa a ser suspeita de a utilizar em seu proveito próprio. O declínio das vivências comunitárias e a individualização do trabalho e do lazer dificultam a criação de identidades colectivas. Quando se olha quem está ao nosso lado, há maior tendência para criticar que para estabelecer uma relação de camaradagem. O sacrifício da vontade pessoal em nome do bem-estar do grupo é cada vez menos aceite. De uma maneira geral, a nossa sociedade venera os vencedores e despreza as vítimas. A esperança num futuro mais justo e solidário foi abalada por inúmeras desilusões. Este ambiente prejudica os tradicionais apelos da esquerda à mobilização colectiva, enquanto a direita, sobretudo nos novos partidos, capitaliza a herança salazarista de desprezo pela política. Quem quer uma sociedade sem classes?

 

 

3. A lógica da Guerra Fria e do combate ao “imperialismo”, fosse ele americano ou soviético, construía uma narrativa universalmente válida que integrava os seus seguidores num vasto movimento internacional de pessoas com os mesmos objectivos, como a liberdade ou a igualdade. Já neste século, a invasão do Iraque reavivou alguns desses discursos, a partir da contestação à hegemonia americana ou da defesa desta. No entanto, pouco depois, o mundo tornou-se mais complicado. Já poucos negam que o presidente dos EUA é um idiota de extrema-direita, mas agora ele está ao serviço da Rússia do czar Putin, que o PCP instintivamente confunde com a antiga URSS. Sem linhas claras, a geopolítica revela-se cada vez mais caótica, com interesses contraditórios a cruzarem-se. Neste contexto, o internacionalismo associado ao projecto comunista possui escassas bases onde se apoiar. Quem são os aliados e quem são os inimigos?

 

4. A história das experiências comunistas do século XX e da opressão e sofrimento que envolveram constitui um obstáculo evidente ao sucesso dos anticapitalistas, que ainda têm de ouvir dos seus adversários referências diárias à bizarria da Coreia do Norte e ao colapso da Venezuela chavista. Em Portugal, o PCP tem recorrido à negação ou desvalorização daquilo que correu mal, enquanto a extrema-esquerda procura uma fórmula que recupere a pureza do ideal marxista sem cair nos “desvios”, num desafio ainda não concretizado. Na verdade, até mesmo a memória da situação internacional anterior a 1989 tem desaparecido. Imaginar sociedades organizadas num modelo alternativo à economia de mercado é hoje um esforço bastante árduo e pouco estimulado. Onde fica a utopia e como se chega lá?

 

5. O futebol profissional foi sempre encarado com reservas pelos marxistas, enquanto liberais como Carlos Guimarães Pinto vêem nele um exemplo daquilo que toda a sociedade deveria ser. De facto, para lá do “mérito” associado ao êxito dos melhores jogadores e treinadores, trata-se de um meio onde as desigualdades entre países e clubes são consideradas naturais e os futebolistas, precários por natureza, são “comprados” e “vendidos” como gado sem que a linguagem soe mal. O amor clubístico é interclassista, permitindo a um burguês como Pinto da Costa afirmar sem se rir que se mantém no dirigismo desportivo para proporcionar alegrias aos portistas mais pobres. A ascensão social de um pequeno grupo de jovens atletas nascidos na pobreza que o futebol transformou em milionários (por vezes esquece-se de que se trata de casos raros no conjunto dos profissionais do desporto-rei) ajudou a dissociar riqueza de exploração e a espalhar a ideia de que o sucesso de um indivíduo só depende do seu empenho pessoal. A isto tudo juntou-se recentemente a transferência para a política de fenómenos como a violência, o sentimento tribal, o discurso rude e agressivo e o espírito de intolerância que medraram a pretexto do futebol e formataram pessoas inteligentes para acreditar nas posições mais absurdas. Esta dinâmica evolutiva do futebol, iniciada há mais de um século e aparentemente imparável, seria impossível numa sociedade socialista. Pode o futebol deixar de ser uma indústria?

 

6. Obviamente, o retrato feito atrás é apenas um esboço da situação presente. Numa altura em que os efeitos políticos globais da pandemia de Covid-19 são ainda imprevisíveis, nada garante que o declínio do socialismo seja eterno. De resto, nos EUA, os eleitores mais jovens do Partido Democrata estão a radicalizar-se bastante à esquerda do mainstream centrista representado por Joe Biden. A luta contra as alterações climáticas, que recuperará o seu inevitável protagonismo quando a “normalidade” voltar, é encarada por alguns como uma oportunidade para popularizar o discurso anticapitalista. Tudo é uma incógnita, mas o ressurgimento do marxismo não será possível sem a revalorização da política, da acção colectiva, da crença na Humanidade e até da ideia de um futuro melhor. Os proletários de todos os países irão unir-se?