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Desumidificador

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Reunião da direcção do Chega

Tendências do mercado

 

“Como os muçulmanos daqui são poucos e não assustam o suficiente (embora aproveitar o terrorismo nunca seja demais), vamos buscar os ciganos, de que toda a gente diz mal e não têm ninguém a representá-los no espaço público. Justiça mais dura é fundamental e não se pode deixar de aludir muitas vezes à inutilidade dos políticos e ao “sistema” corrupto que tem medo de nós. O mais importante, contudo, é opor o nosso trabalho duro ao parasitismo dos outros, de quem nós somos “escravos”.”

“Quais outros?”

“Ah, isso deixamos à imaginação de cada otário, digo, eleitor. Há sempre alguém a sentir-se lixado por alguém. Até é bom sermos muito vagos, para não termos de responder a perguntas difíceis. Nós só marcamos os pontos no papel. O público é que os une.”

 

 

Incoerências

 

“Ó André, temos aqui um problema.”

“Qual?”

“Lembras-te daquela conversa sobre a moralização da classe política e como tu eras mais honesto que a gente do sistema?”

“Vagamente. Porquê?”

“Bem… Usámos assinaturas da bófia para atingir o número exigido pelo Tribunal Constitucional. Depois descobriu-se que isso era ilegal, mas tu, apesar de seres professor universitário de Direito, não sabias. Conseguimos contornar isso e legalizar o partido, mas o TC chibou-se e contou que temos apoiantes de 8 anos e alguns que já passaram os 100 e morreram. Entretanto, houve aquela confusão de quereres que a nossa coligação também se chamasse Chega. Não aceitaram e apresentámos uma proposta totalmente diferente, Europa Chega. Também não aceitaram e, depois de teres dito que sem o Chega no nome já não te candidatavas, fizemos aquele brainstorming que durou três horas e lembrámo-nos do Basta. O TC lá aceitou e candidataste-te sem problema nenhum. Depois faltaste ao debate dos pequenos partidos na RTP para ires falar do Benfica na CMTV. Pelo meio houve ainda outras chatices, mas foram tantas que já nem me lembro. Ah, e sabes aquelas centenas de milhares de euros que recebemos para os cartazes? Ninguém acredita que vieram de um crowdfunding dos nossos militantes.”

“E daí?”

“Isso afecta a tua imagem. Há quem refira esses factos para dizer que és aldrabão, incoerente e incompetente.”

“Deixa lá, pelo menos falam de nós e posso dizer que são tudo manobras do sistema para nos tramar.”

“É como disse o Trump. Até podias matar alguém em plena Avenida da Liberdade que nada te acontecia.”

“Quando se faz tudo como se não fosse grave, deixa de ser grave.”

 

 

A grande coligação

 

“Que aliados arranjaste?”

“O PPM, o PPA/DCC…”

“Não é VPV/CCB?”

“Não, espera, é PPR/CFC… Sei lá, meia dúzia de beatos. E também há a gaja boa, a Sofia Afonso Ferreira.”

“Para que é que foste buscar essa malta?”

“Uma coligação com quatro partidos ou quase partidos dá a impressão de ter imensa gente, mesmo que caibam todos num restaurante. Também ajuda a normalizar o Chega ao mostrar que há muitos tipos a quererem ser nossos amigos. Mas, acima de tudo, quanto mais pessoas eu liderar, mais adoro isto. Sinto-me tão importante.”

“Eles aceitaram coligar-se connosco em cinco minutos, não foi?”

“Houve uns betos do PPM que refilaram, mas o fadista pô-los na ordem.”

“Porque é que aceitaram tão depressa?”

“Sozinhos, eles nunca elegeriam ninguém para cargo nenhum. Então, meteram-se atrás do gajo que aparece na televisão. É uma oportunidade única. Além disso, prometi ao Câmara Pereira que o deixava ficar com o lugar lá na Europa depois de eu ser eleito e renunciar no dia seguinte. Até meti duas parentes dele na lista.”

“Nós não somos contra o nepotismo?”

“Só contra o nepotismo de esquerda, como é óbvio.”

 

 

 

Estratégia de campanha

 

“Quantos tempos de antena fazemos?”

“Só um, comigo a dizer o paleio do costume. Ninguém liga a isso. O importante é aquilo que pomos nos cartazes e no Facebook. Que discurso é que vamos usar?”

“Eu pensei numa campanha centrada em três palavras: “maralha”, “escandaleira” e “bandalheira”. Acham suficientemente popular?”

“Parece-me bem. Mas não seríamos ainda menos elitistas se usássemos “chulos”, “paneleiros” e “mamar à grande”?”

“Isto não é o PNR, André. Somos respeitáveis.”

“Ah. Claro. Ó Nuno, como vai o nosso programa?

“Sabes, eu tinha pensado em enumerar umas medidas sobre redução de impostos e criação de emprego. Mas depois lembrei-me de qual é a nossa base de apoio e escrevi apenas “Polícias bons, bandidos maus.””

“Perfeito!”

 

 

Expectativas

 

“Exagero e vitimização. Como é que estamos?”

“Deixa ver a lista. Boicote da comunicação social, check. Comentadores do sistema a borrarem-se de medo, check. Toda a gente que nos critica está feita com o Sócrates, o Salgado e o Berardo, check. Somos uma onda que ninguém pode parar, check. Vamos abalar tudo e criar a IV República, check. Os parasitas que vivem à custa do povo há 40 anos vão ter de fugir do país, check. Há alguma coisa que queiras acrescentar?”

“Que tal dizer que andam a ameaçar matar-me?”

“Faz lembrar aquilo do Fernando Nobre: “Ou me dão um tiro na cabeça ou vou para Belém”. Pode resultar.”

“Mas olha lá, e se não acontecer nada disso?”

“Desculpa?”

“E se ninguém votar em nós e não fores nem para o Parlamento Europeu nem para a Assembleia da República?”

“Nesse caso, posso esticar isto mais um pouco e candidatar-me às presidenciais de 2021. Digo umas coisas sobre o Marcelo e tenho mais dez minutos de fama.”

“Mas afinal isto do Chega é só para ganhares protagonismo e uns trocos?”

“E se for? Vocês criam uma oposição interna e afastam-me da liderança do partido?”

(Dois segundos de silêncio, após os quais todos desatam a rir às gargalhadas.)

“Isto do fascismo tem imensa piada.”

“O que a gente se diverte…”

 

Aviso: Para evitar ameaças de processos judiciais, esclarecemos que o texto precedente é inteiramente ficcional. Estamos certos de que a realidade é bem mais estúpida.

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