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Roquete e eu

Quando estudei a história da selecção portuguesa de futebol, deparei com António Roquete, guarda-redes do Casa Pia Atlético Clube, internacional por 16 vezes e membro da mítica equipa das quinas que atingiu em 1928 os quartos-de-final do torneio de futebol dos Jogos Olímpicos de Amesterdão, mas não lhe conferi um destaque superior ao de outros craques dos anos 20, como Jorge Vieira, Pepe, Vítor Silva ou Valdemar Mota. Posteriormente, na Torre do Tombo, ao consultar o arquivo da Comissão de Extinção da PIDE/DGS, descobri uma referência ao processo n.º 1111, instaurado pela comissão ao antigo subinspector António Fernandes Roquete, que se encontrava em 1977 na situação de liberdade provisória. A coincidência fez-me procurar o que já tinha sido escrito sobre Roquete, quer como futebolista quer como funcionário da polícia política, e compreender que ninguém tinha ainda cruzado as duas histórias. Voltei então à imprensa desportiva das décadas de 20 e 30 e, sem saber bem no que aquilo ia dar, comecei a examinar em detalhe as crónicas e notícias acerca do guarda-redes casapiano. Quanto mais informação reunia, mais fascinado ficava com aquela história incrível.

 

Apesar do seu apelido sonante, António Fernandes Roquete, nascido em Salvaterra de Magos no ano de 1906, conheceu dificuldades económicas na infância, quando os seus pais empobreceram e separaram-se, criando uma situação que resultou em 1916 na admissão de António como aluno interno da Casa Pia de Lisboa. Em Belém, Roquete gozou de condições de estudo raras em Portugal no início do século XX e descobriu a sua vocação para o desporto, aplicada sobretudo nas modalidades de futebol e natação (seria campeão de Lisboa em 200 metros bruços). Titular da equipa principal do Casa Pia desde 1924, o ribatejano depressa conquistou a crítica e o público ao revelar-se o melhor guarda-redes português do seu tempo. Roquete conheceu a fama e a glória, mas não a fortuna, uma vez que jogar futebol ainda não era uma profissão legalizada em Portugal. O casapiano passou por vários empregos antes de, em 1931, se tornar agente da Polícia Internacional Portuguesa, uma nova força policial criada pela Ditadura Militar para vigiar as fronteiras e os estrangeiros residentes no país, mas também envolvida no combate aos crimes políticos, faceta que se acentuou com a integração em 1933 da PIP (e de Roquete) na Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE), conhecida a partir de 1945 pela sigla PIDE.

 

 

Depois de liderar os postos fronteiriços de Elvas e Valença e abandonar o futebol (com avanços e recuos, antes de optar de vez pela actividade policial), António Roquete ascendeu à categoria de inspector e tornou-se uma das principais figuras da polícia política do Estado Novo. Mais tarde, após cumprir em 1939 e 1943-1944 missões em Moçambique, António partiu definitivamente em 1947 para a colónia da África Oriental, onde chefiaria a Polícia Internacional, um pequeno grupo de agentes integrados no Corpo de Polícia de Moçambique e dotados de competências semelhantes às assumidas pela PIDE na Metrópole. O ex-futebolista permaneceu nessas funções até 1961, quando se reformou da função pública e começou a trabalhar como chefe de segurança do Banco Nacional Ultramarino e de uma empresa controlada por este, a Caju Industrial de Moçambique. De regresso a Lisboa após o 25 de Abril, Roquete foi constituído arguido, mas nunca seria preso e desfrutaria de uma velhice cuja pacatez apenas era quebrada por entrevistas e homenagens nas quais o casapiano recordava a sua carreira desportiva. Falecido em 1995, António Roquete é ainda hoje considerado o maior atleta da história do quase centenário Casa Pia.

 

Animado pelos precedentes estabelecidos por obras historiográficas de Ricardo Serrado (Cosme Damião – O Homem que Sonhou o Benfica) e Irene Flunser Pimentel (Biografia de um Inspector da PIDE. Fernando Gouveia e o Partido Comunista Português) e desejoso de corrigir várias informações falsas ou incompletas transmitidas nos esboços biográficos já existentes sobre Roquete, apresentei na FCSH-UNL um projecto de doutoramento com o título António Fernandes Roquete (1906-1995): Um “ídolo” do desporto nas polícias políticas do Estado Novo, cuja aprovação deu início a um período de exactamente três anos para fazer a tese. Apesar do meu plano da estrutura do texto e do tempo que gastaria a consultar as diferentes fontes, o processo de pesquisa e escrita foi bastante improvisado, até porque era frequente encontrar pistas que me conduziam a locais inesperados. Por exemplo, já a meio da investigação tive acesso a material de grande valor, como as cartas escritas por António Roquete às chefias da PIDE entre 1954 e 1960 (nas quais o ribatejano fazia críticas ácidas às autoridades coloniais de Moçambique) ou uma compilação de circulares e outros documentos da PVDE reunidos pelo então inspector nos anos 30. Biografar Roquete assemelhou-se a fazer um puzzle em que o número de peças ia aumentando a pouco e pouco, sem que fosse possível, devido às lacunas na documentação, encontrar todos os pedaços necessários para obter uma imagem completa.

 

Quem foi, afinal, António Fernandes Roquete? Concluída a biografia, só posso responder: não sei. As dúvidas e mistérios relativos ao seu percurso são inúmeros e imaginar aquilo que falta compete ao romance histórico e não à historiografia. O que descobri foi sobretudo como Roquete, preocupado com a sua imagem pública, queria ser visto pelos outros. Inteligente e habilidoso, sabia ser, dependendo do contexto, quer correcto, humilde e simpático quer brutal, prepotente e rancoroso, conforme fosse preciso despertar admiração, respeito, ódio ou medo em quem o ouvia. Admito que alguns eventuais leitores da biografia considerem demasiado neutra e complacente a forma como descrevi um agente da repressão ditatorial, mas preferi, em vez de proclamar abertamente a “moral” da história, deixar o leitor chegar lá sozinho através dos factos e citações que seleccionei. Mais problemático, e talvez mais difícil de julgar, é saber se, escondido nas entrelinhas do relato da vida do biografado, também está lá o biógrafo. Seja como for, depois de entregar a tese de doutoramento no ano passado, aguardo que a faculdade me informe do dia do juízo final, digo, das provas públicas, em que vou tentar defender os remates dos arguentes.

 

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