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Sebastião era perfeito

No início de 2017, hesitei na decisão de criar um blogue. Acreditava que, para escrever sobre a actualidade, um colunista teria de possuir níveis razoáveis de experiência, conhecimento e, se possível, sentido de humor. Até que li as crónicas de Sebastião Bugalho no jornal i e verifiquei que, afinal, qualquer um consegue ser comentador. É justo reconhecer que Bugalho mostra uma fluidez assinalável na sua expressão oral e escrita, mas o conteúdo das intervenções do “prodígio” de apenas 23 anos não vai muito além do habitual “Passos bom, Costa mau, Rio péssimo”.

 

Agora que Sebastião Reis Bugalho foi escolhido por Assunção Cristas para integrar em sexto lugar a lista do CDS pelo círculo de Lisboa nas próximas legislativas (o jovem pode chegar a S. Bento, se o CDS tiver um bom resultado na capital ou se ocorrerem renúncias entre o segundo e quinto lugares), convém rever o que ele andou para aqui chegar. Na verdade, não andou muito. Quando 2016 começou, Sebastião Bugalho, filho de um casal de jornalistas, era apenas um estudante de Ciência Política no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica, fábrica de “IEPianos” geralmente alinhados à direita. Nesse ano, Bugalho começou a assinar uma coluna semanal de opinião política no i, até que ao fim de alguns meses a direcção comum ao diário e ao seu irmão Sol convidou Sebastião para, além das crónicas, iniciar a escrita de artigos jornalísticos. Por coincidência, a primeira entrevista do novo repórter foi feita ao líder da JP, Francisco Rodrigues dos Santos (“Chicão”), actualmente também candidato a deputado pelo CDS. Pouco tempo depois, Bugalho era o responsável pela redacção de grande parte da secção de Política do i e impunha um estilo de escrita próprio do qual faziam parte títulos de notícias supostamente espirituosos. Autor de textos centrados sobretudo nos bastidores de PSD e CDS, Bugalho conseguiu vários furos para o i e o Sol. A título de exemplo, mencionemos a entrevista onde André Ventura, então candidato a autarca de Loures, divulgou pela primeira vez a sua opinião sobre os ciganos ou, já em 2018, a reportagem na qual Bugalho detectou irregularidades no currículo de Feliciano Barreiras Duarte. Algumas mentes paranóicas lembraram-se de sugerir que este último artigo nascera de uma dica dos adversários internos de Rui Rio. No entanto, Sebastião depressa expôs a verdade nua e crua, revelando que, ao examinar o currículo do novo secretário-geral do PSD, estranhara a referência à passagem deste pela universidade de Berkeley como visiting scholar, uma vez que Barreiras Duarte era conhecido nas hostes “laranjas” pelo seu péssimo inglês.

 

Para lá da investigação jornalística, Sebastião Bugalho começou a participar como analista político em noticiários da TVI24. A situação resultou de um convite do director de informação da estação de Queluz, Sérgio Figueiredo, que, segundo o próprio explicou, é amigo dos pais de Bugalho e, ao conviver com Sebastião, ficou imediatamente fascinado pelo discurso e pela inteligência do jovem promissor. No Verão de 2018, enquanto a maioria dos programas de debate político encerrava para férias, a TVI24 lançou Novos Fora Nada, um espaço onde Bugalho discutia semanalmente um determinado tema da actualidade com António Rolo Duarte, num diálogo na redacção da TVI a que se juntava um convidado surpresa. Entretanto, Sebastião anunciara nas redes sociais o seu repentino abandono não só do i e do Sol, mas também da profissão de jornalista. Bugalho não ficou, contudo, longe da imprensa, passando a integrar a equipa de colunistas permanentes do Observador, numa mudança que representou um ganho significativo de visibilidade e reconhecimento simbólico para o ex-jornalista, cuja outra actividade profissional consiste num trabalho de consultoria para a Câmara de Cascais (presidida por Carlos Carreiras, também colunista do i). Depois do surgimento em 2017 do Sebastião Bugalho jornalista e de 2018 ter sido o ano de consagração do Sebastião Bugalho comentador, 2019 parece revelar a ascensão fulgurante do Bugalho político.

 

 

Tudo tem acontecido depressa na vida deste homem, dotado de uma precocidade que o levou a passar para o lado dos entrevistados. Em Outubro de 2017, Sebastião Bugalho conversou em directo na rádio com Ana Galvão e Joana Marques, então ao serviço da Antena 3. A entrevista decorreu ainda sob o choque dos incêndios desse mês, com Bugalho a elogiar a resposta política dada por Marcelo Rebelo de Sousa (o mesmo Marcelo que Bugalho insultaria meses depois no Twitter) à tragédia. À excepção dos ataques dirigidos à esquerda, torna-se difícil identificar no diálogo com Galvão e Marques uma reacção espontânea reveladora do verdadeiro Sebastião, dado que este transborda de pretensiosismo e de uma preocupação obsessiva em dizer as frases certas para agradar às pessoas certas. Já em Setembro de 2018, após o fim de Novos Fora Nada, Bugalho concedeu uma entrevista ao Jornal Económico na qual falou do seu gosto pela “porrada” no debate político, considerou que “se fosse de esquerda seria uma popstar” e mostrou-se aberto a convites para colaborar com um dos partidos da direita, ainda sem referir o CDS.

 

O aspecto interessante do percurso de Sebastião Bugalho reside no facto de provar que os liberais estão certos. Existem realmente inúmeras oportunidades para pessoas dinâmicas, sem padrinhos nem ligações familiares, que se apresentem ao mundo dotadas apenas de ideias originais e independentes do sistema. Os jovens portugueses do século XXI já não querem a segurança paralisante de um trabalho estável, optando deliberadamente pela aventura da precariedade, que lhes permite mudar de profissão sempre que desejarem. A comunicação social não precisa de gente que gasta anos a fazer especializações inúteis nas universidades dominadas pela esquerda, mas sim de repórteres ousados dispostos a romper com a suposta “neutralidade” do jornalismo e sem receio de dar voz a quem resiste ao politicamente correcto. A renovação da política será feita por pessoas assim, com uma carreira de sucesso feita no sector privado, em contacto com o país real e longe dos gabinetes partidários.

 

Para além de ser um exemplo vivo do sucesso do capitalismo, Bugalho possui ainda o vocabulário adequado à verdadeira direita, uma direita orgulhosa de si própria que corra de vez com a esquerda e combata o populismo ao satisfazer as justas reivindicações deste. Ainda por cima, a juventude de Sebastião garante-lhe uma longa carreira. A partir daqui, gerações de portugueses crescerão acompanhados pela voz, pelo olhar e pelos casacos do ex-jornalista, até que um dia todos seremos Sebastião Bugalho.