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Desumidificador

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Should he stay or should he go?

Durante a campanha para as eleições autárquicas, os canais de notícias têm por várias vezes apresentado em directo excertos dos discursos de Pedro Passos Coelho nos comícios do PSD. O sorriso quase eterno do líder “laranja” permite imaginar, caso o som da televisão esteja desactivado, que Passos procede a um exercício de fina ironia ou experimenta o stand-up, aproveitando para mostrar a possibilidade de criar boa comédia sem cair nos horrores do humor negro. No entanto, a reprodução da voz do antigo primeiro-ministro revela um discurso absolutamente oco. O telespectador não percebe porque haveria de escolher votar nos sociais-democratas. A “venturização” em curso revela-se uma tentativa desesperada de preencher o vazio deixado pelo fracasso da “teoria do Diabo”.

 

A 1 de Outubro, a verdadeira surpresa seria haver uma surpresa. Poucos acreditam que o resultado da eleição dos órgãos autárquicos altere a situação política nacional, sobretudo porque todos os partidos podem encontrar pretextos para cantar vitória. No caso do PSD, dificilmente se registará um resultado pior que o de 2013 e, caso se assista em Loures a uma vitória ou mesmo a uma derrota tangencial de André Ventura, o partido pode avançar com a criação da milícia dos Camisas Laranjas. O município de Lisboa constituirá, no entanto, a chave da interpretação dos resultados. Um eventual segundo lugar de Assunção Cristas, à frente de Teresa Leal Coelho (um nome cuja escolha para o desafio lisboeta causou acesa polémica dentro do PSD), seria humilhante para Passos e agitaria as hostes “laranjas”. Por mais improvável que esse cenário pareça, a cobertura televisiva da campanha na capital tem contribuído para ele, ao destacar Cristas, beneficiada pelo estatuto de líder partidária, como a verdadeira oponente de Fernando Medina, enquanto Leal Coelho, pouco feliz nos debates, recebe os mesmos segundos de ecrã da candidata do PAN. Se os media são decisivos para criar tendências de vitória eleitoral, também podem gerar dinâmicas imparáveis de derrota.

 

 

Um desaire autárquico do PSD poderia, assim, ditar o afastamento de Pedro Passos Coelho no próximo congresso do partido fundado por Sá Carneiro, Pinto Balsemão e Magalhães Mota. Do ponto de vista da Geringonça, o fim do “passismo” seria bom ou mau? É chegada a altura de fazer uma revelação. Amigos da direita: o pessoal da esquerda não quer ver-se livre de Passos Coelho por ter medo de que este volte a ganhar as eleições ou devido ao desejo de vingança de António Costa, como vocês pensam, mas simplesmente por cansaço (já lá vão sete anos) e vergonha alheia motivados pelo homem de Massamá. Apenas Passos não percebeu ainda que o filme por ele protagonizado já acabou há muito. A retirada do barítono seria o verdadeiro encerramento do capítulo iniciado com a assinatura do memorando da troika.

 

Contudo, o problema está na dificuldade em antever quem seria o sucessor de PPC. Rui Rio? Paulo Rangel? Luís Montenegro? Marco António Costa? Maria Luís Albuquerque? Hugo Soares? André Ventura (acreditem, esse dia já esteve mais longe)? Parece ser cada um pior que o outro. Por outro lado, a liderança de Passos Coelho garante à esquerda que o PSD voa baixinho nas sondagens e assegura que, entre ser Pedro Mexia e ser Maria Vieira, a direita escolherá sempre a segunda opção. A habilidade revelada por Cristas, em comparação com o desnorte de Passos, poderá atrair ao CDS parte do eleitorado do PSD e aprofundar a divisão no campo conservador. A figura de PPC faz ainda lembrar o “regime cavaquista”, origem da repulsa comum na qual se baseou o inédito acordo entre PS, PCP e BE, fortalecendo a união destes. Por último, o derrube de PPC tem sido o objectivo de todas as intervenções televisivas de Marques Mendes nos últimos anos e seria doloroso proporcionar esse triunfo ao comentador da SIC. Tudo somado, valerá a pena desejar a rápida saída de Passos Coelho da liderança social-democrata ou será melhor esperar por 2019? Na verdade, a escolha pertence aos militantes do PSD e aos colunistas do Observador. Eles lá sabem o que é melhor para eles.