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TV Marcelo

Por estranho que isso hoje pareça, nove pessoas ousaram concorrer às eleições presidenciais de 24 de Janeiro de 2016 contra Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa. Entre figuras credíveis e outras apenas desejosas de gozar uns minutos de fama, todos se apresentaram como os candidatos capazes de bater Marcelo numa segunda volta. Para além da estratégia errada de atribuir antecipadamente o primeiro lugar a um dos candidatos e fazer toda a campanha em função dele, podemos dizer que a hipótese de realização de uma segunda volta numa eleição presidencial em Portugal é bastante improvável, já que nos nove sufrágios desse tipo ocorridos em 40 anos tal aconteceu por apenas uma vez (em 1986), nas eleições mais renhidas de sempre. O certo é que Rebelo de Sousa foi eleito com uma perna às costas, sem necessitar de produzir cartazes ou folhetos de propaganda. Afinal, o antigo líder do PSD já fazia campanha há anos no seu programa na TVI, onde combinava a análise política com elementos de reality-show, presentes na relação afectiva estabelecida por Marcelo com Júlio Magalhães, Judite de Sousa e outros pivôs do canal. Durante os primeiros dois anos de exercício do mandato presidencial, a televisão continuou a ser o espaço privilegiado de intervenção de Marcelo, sempre seguido por câmaras e microfones e disposto a responder a perguntas acerca dos mais variados temas.

 

Na verdade, mais do que fazer política na televisão, Marcelo Rebelo de Sousa tem feito televisão na política. Desde logo, ao perseguir o objectivo do movimento perpétuo, uma vez que, se nada estiver a acontecer no ecrã, o espectador pode mudar de canal. Da mesma forma, a televisão e Marcelo têm horror ao silêncio e orientam-se pela necessidade de falar continuamente, a não ser em casos excepcionais (como um longo abraço) nos quais o silêncio sirva para transmitir uma mensagem. Para abordar uma questão, não basta referi-la por palavras, é fundamental ir a um qualquer lugar, fazer algo e mostrar tudo, além de apelar à emoção e não à razão, recorrendo mais a sentimentos que a argumentos. De resto, a privacidade é um conceito do passado e quem não se exibe tem decerto algo a esconder. A resposta a um acontecimento deve ser imediata e em directo, sem perder tempo precioso a aguardar por mais detalhes. A emissão já não é feita em espaços fechados, mas na rua, junto do povo. A busca de audiências implica que o público tem sempre razão e torna obrigatório apresentar o que ele quer e, se possível, lisonjeá-lo. A mensagem transmitida precisa de ser o mais consensual possível, de modo a não ofender nenhum segmento da audiência. Afinal, os espectadores preferem a repetição à inovação e não se importam de ver a mesma coisa todos os dias. Acima de tudo, popularidade é sinónimo de qualidade, dado que milhões de pessoas não podem estar enganadas. No século XXI, assim se faz televisão, assim se preside à República.

 

 

Tal como outras estrelas da televisão, Marcelo Rebelo de Sousa possui os dons da naturalidade e da espontaneidade, fazendo crer que se comporta de maneira igual à frente das câmaras e longe delas, quando se mostra sempre disponível para tirar selfies com os fãs. Este aspecto é importante, já que o público consegue detectar quando alguém finge ser quem não é, como se viu no caso do “Programa do Aníbal”, estreado com audiências elevadas em horário nobre e que acabou quando já só passava às três da manhã. Marcelo tem adoptado uma imagem paternal na política portuguesa, assemelhando-se ao modelo do pai ideal difundido nas séries televisivas mais convencionais: alguém sempre presente, brincalhão e carinhoso, mas capaz de repreender os filhos quando é preciso (“vai já pedir desculpa aos senhores”, “estes números não são maus, mas podias fazer melhor”) e manter a ordem apesar das discussões entre as crianças, de modo a zelar pelo bem comum da família e assegurar um final feliz em cada episódio. Um formato tão popular como este não pode deixar de ser renovado por várias temporadas.