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Desumidificador

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Um passeio pela direita

1. Faz todo o sentido que a Aliança utilize um discurso anti-sistema, ainda para mais quando o novo partido tem um líder jovem, sem experiência governativa e desprovido de ligações às elites políticas e mediáticas, o Pedro Santana Lopes (acho que o nome é este, mas não me lembro bem da cara dele).

 

2. A dinâmica de derrota em torno de Rui Rio parece imparável, numa altura em que a apreciação dos media (em particular da SIC) sobre o líder social-democrata se torna cada vez mais negativa. A guerra interna do PSD, convertido num saco de gatos, favorece a queda das três setas nas sondagens e a atitude de vitimização da direcção presidida por Rio. Além da hostilidade mediática, há que reconhecer a falta de capacidade mobilizadora do boavisteiro, cujo discurso parece já estar focado em convencer os militantes “laranjas” a não o afastarem depois das previsíveis derrotas de 2019. Ser líder do PSD quando o partido está na oposição é sempre complicado, mas poucos anteviram em Janeiro que o ano correria tão mal a Rui Rio. A resiliência deste poderá motivar um novo fôlego do PSD antes das legislativas, relativamente às quais as expectativas sociais-democratas são tão baixas que até um resultado desfavorável, mas não humilhante, poderá parecer bom. No entanto, disse-se exactamente o mesmo sobre Passos Coelho antes das autárquicas de 2017 e isso não evitou o desastre.

 

3. Durante o debate na especialidade do Orçamento do Estado, Assunção Cristas voltou a apresentar a sua candidatura a primeira-ministra, fazendo Mariana Mortágua rir às gargalhadas. É compreensível que Assunção queira distanciar-se do PSD e atrair pessoas próximas do CDS que duvidam da capacidade do partido da bola ao centro de alcançar o primeiro lugar. No entanto, a menos de um ano das legislativas, quando as sondagens atribuem ao CDS apenas cerca de 7% das intenções de voto, o truque publicitário lançado por Cristas no congresso centrista está a cobri-la de ridículo. A ex-ministra poderia recorrer a uma fórmula mais vaga, à imagem do PCP quando afirma estar preparado para assumir quaisquer responsabilidades que os portugueses lhe entendam atribuir, mas Cristas opta por personalizar a coisa e descrever as atitudes que tomará na qualidade de primeira-ministra. Num dos seus discursos, Marcelo Rebelo de Sousa já disse a Assunção Cristas para parar com isto, mas sem sucesso. Embora legítima, a ambição política torna-se contraproducente ao transmitir uma imagem de irrealismo e megalomania. 

 

4. O empenho da Iniciativa Liberal em assinalar os aniversários do 25 de Novembro e da morte de Francisco Sá Carneiro ganha relevância numa época em que a política se resume ao presente e costuma desvalorizar a memória. A IL tinha já rompido com a tradicional ausência da direita na manifestação comemorativa do 25 de Abril, encarando a Revolução como um ponto de partida para a conquista de mais “liberdade” no futuro. Recordar os eventos da década de 70 contribui para atenuar a habitual dificuldade dos liberais, ciosos da sua originalidade no quadro político português, em encontrar precedentes e referências históricas dos quais sejam herdeiros. Todavia, a construção de uma memória partidária acaba necessariamente por simplificar em demasia os acontecimentos passados. No caso do 25 de Novembro, existiram dentro dos campos em confronto nesse dia grupos com agendas e objectivos distintos, sem uma coordenação unificadora. Mais do que uma vitória dos bons sobre os maus, verificou-se um acordo de finalização do PREC negociado por Álvaro Cunhal e Melo Antunes, rosto principal do Grupo dos Nove, cuja tolerância sobrepôs-se ao anticomunismo de Jaime Neves e dos sectores da direita que pretendiam ilegalizar o PCP. Quanto a Sá Carneiro, o próprio fundador do Partido Social-Democrata negou ser um liberal, apesar dos seus choques com os sectores mais à esquerda dentro do PSD. Sá Carneiro opunha-se ao modelo económico expresso na Constituição de 1976, mas, assim como o seu parceiro de coligação Freitas do Amaral evoluiu até ser hoje visto pela direita como um traidor socialista, quem sabe o que o advogado portuense pensaria no contexto do século XXI?

 

 

5. Enquanto a maioria dos comentadores políticos nacionais mantém os mesmos tiques e manias década após década, Henrique Raposo manifestou uma nítida evolução no seu pensamento ao longo de cerca de dez anos de crónicas escritas para o Expresso e para o site da Rádio Renascença. O Raposo liberal e iconoclasta de 2008, empenhado em romper com o establishment de “Lisboa”, foi dando lugar a um cronista em trânsito lento mas seguro para o conservadorismo. Tudo o que Henrique Raposo escreveu a partir de 2015, incluindo o livro Alentejo Prometido, pode ser resumido em três palavras: Deus, Pátria, Família. O esforço de Raposo consiste precisamente em retirar a esses três conceitos a carga negativa que lhes foi dada pela ligação ao Estado Novo e integrá-los no pensamento de uma direita moderada, oposta quer ao “politicamente correcto” da esquerda quer ao ímpeto revolucionário da extrema-direita em ascensão. Nos seus artigos recentes, centrados sobretudo nos debates em curso nos EUA trumpistas, na França de Macron (visto por Henrique como o novo modelo do político de centro-direita) e no Reino Unido a caminho do Brexit, Raposo propõe a construção de uma pátria cosmopolita, mas orgulhosa da sua História e das suas raízes cristãs. A ideia de uma comunidade nacional aberta à integração de todos os indivíduos dispostos a aceitar as regras definidas, além de empenhada no combate à pobreza e à exclusão, permitiria ultrapassar a lógica agressiva daqueles que, à esquerda e à direita, acentuam as divisões por etnia, género, religião ou orientação sexual. Henrique critica ainda uma direita (liberal?) que reduz tudo ao “Excel” e à liberdade económica, ignorando a necessidade de uma regulação moral do capitalismo dos gigantes tecnológicos. Claro que Henrique Raposo mantém o estilo provocador e as características que lhe têm valido tanta simpatia no ciberespaço, mas a sua distanciação dos episódios do dia-a-dia lusitano e a formulação clara de um “novo” espírito conservador (numa linguagem mais arejada que a de João César das Neves) atribuem ao colunista um estatuto singular no pensamento actual da direita portuguesa.