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Desumidificador

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Um rapaz do Porto

Em 1991 eu tinha apenas seis anos, mas era difícil não reparar no êxito do duplo álbum de Rui Veloso Mingos & Os Samurais, lançado ainda no ano anterior e cujas vendas se traduziram na marca hoje inimaginável de sete discos de platina (cada disco de platina correspondia a 40 mil cópias vendidas). Lembro-me que a RTP passava então um anúncio no qual pessoas de várias idades cantavam “Não Há Estrelas no Céu” antes de uma voz off perguntar “Quem pode perder o novo álbum de Rui Veloso?” e o músico portuense encolher os ombros como quem não sabe a resposta. De facto, a história dos membros de uma banda nortenha do início dos anos 70 imaginada por Veloso e pelo letrista Carlos Tê marcou uma época e chegou a abafar o projecto seguinte dos dois músicos, o novo duplo Auto da Pimenta, encomendado pela comissão para as comemorações dos Descobrimentos. Anos mais tarde, assisti a três concertos de Rui Veloso, dois em Odivelas e um no Pavilhão Atlântico (a actual Altice Arena), este último a assinalar em 2000 as duas primeiras décadas de carreira do artista, num ambiente inesquecível. Curiosamente, estive mesmo ao lado de Veloso em 2007, durante um passeio no rio Douro onde o bluesman se encontrava como mero turista, condição que os outros passageiros do barco respeitaram não o incomodando (se fosse hoje, o pobre Rui não teria um minuto de sossego entre os inúmeros pedidos de selfies). Para mim como para tantos outros portugueses, Rui Veloso é um daqueles músicos que fizeram sempre parte da nossa vida e cuja obra atravessa gerações de forma quase consensual.

 

O feito atingido por Rui Veloso em 1980 não passou pela criação do rock português, com uma longa história anterior, mas pela prova da viabilidade comercial da música moderna cantada na língua de Camões, através do sucesso de vendas do LP Ar de Rock e dos singles “Chico Fininho” e “Rapariguinha do Shopping”. O boom do rock nacional prolongou-se por cerca de dois anos, altura em que os projectos mais frágeis desapareceram para deixar apenas quem apresentava verdadeira qualidade, como Veloso, figura essencial dos anos 80 e protagonista da fase de advento do CD. As letras de Carlos Tê, poeta do quotidiano e narrador dos amores e desamores de personagens identificáveis com qualquer ouvinte, expressam uma visão singular, politizada mas não partidarizada, de Portugal (presente em temas como “A Gente Não Lê”, “Slow da Falta de Quórum” ou “Top dos Tops”), além de possuírem uma riqueza vocabular rara na música lusa. A vida conferida ao imaginário de Tê provém do talento de Veloso, um cantor, compositor e guitarrista exímio dotado de forte empatia com o público. De facto, Rui nunca pareceu uma estrela do rock and roll, mas antes alguém como nós, um jovem de óculos e ar de lingrinhas que se viu famoso da noite para o dia e teve dificuldade em lidar com a insegurança, até dominar os palcos e chegar à maturidade consciente do seu valor. Quer os melhores álbuns (Ar de Rock, Fora de Moda, Rui Veloso, Mingos & Os Samurais, etc.) quer os apenas razoáveis (Guardador de Margens, Avenidas) deixaram a marca de Veloso no cancioneiro nacional e tornaram-no uma inspiração para músicos de gerações posteriores como Miguel Araújo.

 

 

Depois do primeiro quarto de século na ribalta, a carreira de Rui Veloso entrou numa certa estagnação, à medida que o artista parecia mais apto a reciclar os velhos sucessos que a percorrer novos caminhos. Se o período entre os álbuns de originais Avenidas (1998) e A Espuma das Canções (2005) já parecera uma eternidade aos fãs de Veloso, desde então tivemos apenas um disco de duetos, Rui Veloso e Amigos (2012), uma compilação com duas novas músicas e pouco mais. Nas agora raras entrevistas, um Rui frequentemente deprimido e pouco entusiasta chegou a anunciar uma interrupção temporária dos concertos. O afastamento de Carlos Tê da escrita de textos para música veio também dificultar o trabalho criativo do autor de “Harmónica Azul”. Contudo, quando Rui regressa aos palcos, mostra a mesma energia de antes e arrasta multidões sempre dispostas a cantar em coro os versos que todos conhecem. Ainda parece haver muito futuro para Rui Veloso, a quem já ninguém poderá negar um papel fundamental na história da música portuguesa.

 

P.S. Pela última vez: a canção passada no Rivoli chama-se “A Paixão (Segundo Nicolau da Viola)” e não “Anel de Rubi”. Haja rigor, meus senhores.